Criado em 1874 por Paul-Émile Rémy Martin, bisneto do fundador da casa, o LOUIS XIII passou a ocupar um lugar à parte entre os grandes destilados franceses. O nome homenageia Luís XIII, rei sob cujo reinado a família Rémy Martin se estabeleceu na região de Cognac. A projeção internacional veio cedo. Em 1880, caixas já seguiam para Xangai. Em 1900, a bebida esteve na Exposição Universal de Paris. Em 1935, foi servida na primeira classe do Normandie em sua viagem inaugural. Três anos depois, chegou à mesa do rei George VI e da rainha Elizabeth. Winston Churchill também esteve entre aqueles que a provaram, em Aix-en-Provence, em 1948.

Sua elaboração utiliza exclusivamente destilados de vinho produzidos na Grande Champagne, considerada a área mais prestigiosa da região de Cognac. Esses destilados são chamados na França de eaux-de-vie. Até 1.200 podem participar da composição final. Não são ingredientes diferentes, mas lotes produzidos em anos distintos, envelhecidos separadamente e acompanhados ao longo de décadas. O responsável por essa seleção é o maître de chai, o mestre de adega, que prova barricas, acompanha a evolução de cada destilado e decide o que será usado e o que continuará guardado. Algumas escolhas feitas hoje só mostrarão seu resultado quando outro mestre já estiver à frente da adega.

Parte importante desse envelhecimento ocorre nos chamados tierçons, antigas barricas de carvalho de grão grosso. Algumas têm cerca de um século de uso. A técnica de fabricação chegou a desaparecer e foi recuperada pela própria casa a partir de seus arquivos. Desde 2017, novos tierçons voltaram a ser produzidos, cerca de 15 por ano. O ciclo começa muito antes: o carvalho pode levar aproximadamente 150 anos para atingir a maturidade adequada e a madeira ainda passa cerca de três anos em preparação antes de se transformar em barrica.

A garrafa tem história própria. Seu desenho foi inspirado num antigo frasco encontrado nas proximidades de Jarnac, associado ao período da batalha travada ali em 1569. A forma arredondada, as saliências laterais e as flores-de-lis serviram de referência para o recipiente criado por Paul-Émile Rémy Martin em 1874. Os decanters, nome dado a essas garrafas de apresentação, são feitos em cristal, numerados individualmente e, em algumas séries, produzidos pela Baccarat. No modelo clássico, o gargalo recebe acabamento em ouro.

Os tamanhos vão das pequenas apresentações ao clássico de 700 mililitros, passando por Magnums, Jeroboams e Mathusalems. O Mathusalem contém seis litros, tem produção limitada a cerca de 50 unidades por ano e exige um modo próprio de servir. Como inclinar uma peça desse porte seria imprático, o conjunto acompanha uma longa pipeta para retirar o cognac e levá-lo à taça.

As séries limitadas ampliaram o interesse dos colecionadores. The Origin 1874 teve 2.500 exemplares. City of Lights 1900, criada em referência à Exposição Universal de Paris, ficou limitada a 2.000. The Legacy teve apenas 500 Magnums e reuniu as assinaturas de quatro mestres de adega ligados à história recente da casa.

Entre as edições mais disputadas estão os Rare Cask, expressão que significa “barrica rara”. Em situações excepcionais, uma única barrica apresenta características tão particulares que seu conteúdo é separado da produção normal e engarrafado como edição própria. Assim surgiram Rare Cask 43.8, 42.6 e 42.1. Os números indicam o teor alcoólico natural de cada lote. Foram produzidas apenas algumas centenas de garrafas de cada edição.

A Black Pearl também entrou no mercado internacional de coleção. Uma versão Magnum teve somente 358 unidades. Em 2019, um exemplar foi vendido pela Bonhams, em Hong Kong, por cerca de R$ 246 mil em valores atuais. Nesses leilões, pesam a conservação do cristal, a caixa original, a documentação, a procedência e a numeração, além da bebida propriamente dita.

L’Odyssée d’un Roi reuniu algumas das mais tradicionais casas francesas de luxo. Foram produzidos apenas três conjuntos. A Hermès fez o baú de couro, a Saint-Louis trabalhou o cristal e a Puiforcat produziu uma pipeta de ouro branco. Cada peça exigiu mais de mil horas de trabalho e envolveu dezenas de artesãos. Os três conjuntos foram leiloados pela Sotheby’s em Nova York, Hong Kong e Londres, com renda destinada à Film Foundation, criada por Martin Scorsese para preservar e restaurar filmes.

O caso mais extraordinário é o Le Salmanazar. Existe apenas um exemplar. São nove litros de LOUIS XIII em um decanter Baccarat com mais de 15 quilos de cristal. Mais de vinte mestres cristaleiros participaram de sua fabricação. Cheio, o conjunto se aproxima de 24 quilos e também é servido com uma pipeta própria. O empresário vietnamita Nguyen Dinh Tuan Viet comprou a peça em 2018 por valor equivalente hoje a cerca de R$ 7,8 milhões. Sua coleção de cognacs, com mais de 574 garrafas, foi reconhecida pelo Guinness como a mais valiosa do gênero. Nguyen declarou não pretender abrir o Salmanazar.

Em janeiro de 2024, voltou a estabelecer um recorde ao pagar cerca de R$ 11,7 milhões, em valores atuais, por outro LOUIS XIII numa venda privada em Ho Chi Minh City. No Brasil, a escala impressiona mesmo quando a intenção é beber. No Rabo di Galo, bar do Rosewood São Paulo, uma única dose de LOUIS XIII chegou a R$ 5.600 em 2025.

Há uma velha parábola, de autoria incerta, que ajuda a explicar esse comportamento. Um homem visita uma tribo indígena e presenteia o cacique com um relógio de pulso. Ao retornar algum tempo depois, encontra o relógio pendurado no topo do totem, usado como ornamento, e critica o desperdício de um objeto feito para marcar as horas. Mais tarde, o cacique visita a cidade e encontra na parede da casa daquele mesmo homem um arco e flechas indígenas. A crítica volta na direção contrária: para ele, arco e flecha foram feitos para caçar, não para decorar uma sala.

Bebidas foram feitas para beber, relógios de pulso para ver as horas e arcos e flechas para caçar. Ainda assim, objetos de uso também se tornam peças de coleção, símbolos de prestígio ou simples ostentação. Alguns pagam R$ 5.600 para provar uma dose de LOUIS XIII. Outros pagam milhões para possuir uma garrafa que talvez jamais seja aberta.

Todo esse trabalho, toda essa técnica e todo esse tempo para produzir um cognac raro que talvez nunca seja bebido? Para quem entende que grandes bebidas existem para ser provadas, beira a heresia. Quanto mais raro o exemplar, porém, maior a tentação de mantê-lo fechado. E assim um dos cognacs mais elaborados do mundo pode acabar cumprindo melhor sua função como objeto de coleção do que dentro de uma taça.

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