Caçador de Emu
Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Luiz estuda antropologia. Consegue privilégio que é sonho da maioria dos colegas: uma bolsa, via universidade americana, para aperfeiçoar seus conhecimentos no convívio com uma das civilizações mais antigas do mundo: os aborígines australianos.
É convidado para uma caçada de emu, espécie de ema ou avestruz, natural das planícies da Austrália.
O ritual tem início na noite anterior, ao redor do clarão de fogueiras. A coreografia interpretada pelos aborígines repete cada etapa da perseguição e matança. Enquanto um dos nativos incorpora o papel da caça, os demais o perseguem, até abatê-lo.
Antes do clarear do dia, o grupo sai em busca da presa. Caçador inexperiente, mau lançador de bumerangue e lanças, Luiz é encarregado de descobrir as pegadas do emu. Depois de horas de caminhada sob sol escaldante, o batedor encontra pistas de canguru. Chama o grupo de caçadores. Ao constatar o equívoco, alertam Luiz:
– São pegadas de canguru. Nós estamos atrás de emu.
Uma vez mais, enviam o batedor à frente dos caçadores. Luiz ainda não entende a lógica dos aborígines: Por que não seguiram as pegadas do canguru? Canguru não é melhor que emu?
Quilômetros depois, Luiz encontra novas pegadas. Parecidas com as de canguru, menores. Já as tinha visto antes. Sabia serem de wallaby, um canguru pequeno, muito saboroso. Chama os caçadores. Que voltam a reclamar:
– São pegadas de wallaby.
– E o bicho não é saboroso? – indaga Luiz. – Melhor que emu, melhor que canguru?
– Sim – concorda o caçador mais experiente do grupo. – Mas nós estamos atrás de emu. Outro dia nós vamos caçar cangurus e wallabys. Hoje estamos procurando emu.
Percebendo que o batedor ainda não tinha entendido o que se passava, o caçador explica:
– Ontem de noite, quando dançamos ao redor do fogo, nós “matamos” o emu. Agora, só vamos “colher” a caça. Trouxemos armas próprias pra emu. Não tem como ir atrás de canguru e wallaby. Pra isso tem que fazer a dança e trazer armas certas. Se não, a gente não caça nem uma coisa nem outra!
História contada pelo Professor Luiz Marins, num encontro de hoteleiros na cidade de Blumenau/SC,
para exemplificar a necessidade de se ter estratégia e foco, nas caçadas e na vida.
