BLUE ECONOMY E ECONOMIA DO MAR: CONCEITOS DISTINTOS QUE CONVERGIRAM

Os termos Blue Economy e Economia do Mar são frequentemente utilizados como sinônimos. Essa aproximação, contudo, nem sempre existiu. Embora hoje ambos caminhem lado a lado nas políticas públicas voltadas aos oceanos, suas origens são distintas e revelam uma evolução conceitual que merece ser compreendida.
A expressão Blue Economy surgiu em 1994, quando o economista belga Gunter Pauli criou a iniciativa Zero Emissions Research and Initiatives (ZERI). Sua proposta consistia em desenvolver um modelo econômico inspirado no funcionamento dos ecossistemas naturais. Para Pauli, a natureza demonstra que é possível produzir riqueza sem desperdício, pois aquilo que representa resíduo em um processo transforma-se em matéria-prima para outro. Essa lógica deveria orientar a agricultura, a indústria, a geração de energia, a construção civil e praticamente todas as atividades econômicas.
Em 2010, a publicação de sua principal obra consolidou internacionalmente o conceito. Um aspecto frequentemente esquecido é que, na concepção original de Pauli, o termo “azul” não fazia referência aos mares nem à economia marítima. O azul simbolizava o planeta Terra visto do espaço, predominantemente azul, representando uma visão integrada dos sistemas naturais. Seu propósito era apresentar uma alternativa à chamada Green Economy, defendendo um modelo econômico regenerativo, inspirado na inteligência da própria natureza.
A associação entre Blue Economy e os oceanos ocorreu posteriormente. Em 2012, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, os mares passaram a ocupar posição central nas discussões internacionais sobre crescimento econômico e sustentabilidade. A partir daquele momento, organismos como as Nações Unidas, o Banco Mundial, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico e a União Europeia passaram a empregar a expressão Blue Economy para designar o desenvolvimento sustentável das atividades econômicas relacionadas aos mares, oceanos e zonas costeiras.
Essa nova acepção passou a abranger setores como transporte marítimo, portos, pesca, aquicultura, construção e reparação naval, turismo costeiro, energia eólica offshore, biotecnologia marinha, mineração submarina e inúmeras outras atividades vinculadas ao ambiente marinho. Diferentemente da simples exploração econômica dos recursos do oceano, a Blue Economy passou a incorporar princípios como conservação dos ecossistemas, uso sustentável dos recursos naturais, inovação tecnológica, redução da poluição, descarbonização e inclusão das comunidades costeiras.
É justamente nesse contexto que a Blue Economy se aproxima daquilo que tradicionalmente denominamos Economia do Mar.
A Economia do Mar representa o conjunto das atividades econômicas que utilizam o ambiente marinho como fator de produção e geração de riqueza. Seu foco principal está na contribuição desses setores para o desenvolvimento econômico, para o comércio, para a logística, para a inovação e para a criação de empregos. Trata-se, portanto, de um conceito essencialmente econômico.
Já a Blue Economy, em sua acepção contemporânea, agrega uma dimensão normativa. Não basta que a atividade esteja relacionada ao mar; espera-se que seja conduzida de forma ambientalmente sustentável, economicamente eficiente e socialmente responsável.
Na minha avaliação, essa distinção continua sendo importante. A Economia do Mar responde à pergunta onde a riqueza é produzida. A Blue Economy procura responder como essa riqueza deve ser produzida. A primeira delimita o universo das atividades econômicas marítimas; a segunda estabelece princípios para que esse desenvolvimento ocorra sem comprometer a capacidade de regeneração dos ecossistemas marinhos.
Por essa razão, embora hoje sejam frequentemente utilizados como sinônimos, Blue Economy e Economia do Mar não nasceram com o mesmo significado. A convergência entre ambos decorre de uma evolução histórica e institucional ocorrida principalmente após a Rio+20. Conhecer essa trajetória permite compreender que o futuro da economia marítima não depende apenas da expansão de suas atividades, mas da capacidade de conciliá-las com a conservação dos oceanos, transformando o desenvolvimento sustentável em requisito permanente e não apenas em objetivo desejável.
