Parte da imprensa internacional simplificou de maneira equivocada o debate em torno de Barcelona e os cruzeiros marítimos. A narrativa de que a cidade espanhola estaria “expulsando navios” não corresponde exatamente aos fatos. O que Barcelona discute hoje é qualidade do fluxo turístico, capacidade urbana e valor agregado gerado por diferentes perfis de cruzeiro.

A cidade catalã não quer necessariamente menos cruzeiros. Quer menos saturação improdutiva. O alvo principal são as escalas rápidas de gigantescos navios de massa operando no modelo port of call, em que milhares de passageiros desembarcam simultaneamente por poucas horas, pressionando mobilidade, áreas históricas e infraestrutura urbana, porém deixando relativamente pouca riqueza distribuída na economia local.

E a escala desses navios mudou radicalmente nas últimas décadas. Os maiores cruzeiros do mundo já operam com capacidade próxima de 10 mil pessoas entre passageiros e tripulantes. O Icon of the Seas, da Royal Caribbean, supera 7,5 mil passageiros e mais de 2,3 mil tripulantes. Trata-se praticamente de uma pequena cidade flutuante chegando de uma só vez a destinos muitas vezes frágeis urbanisticamente.

Quando uma embarcação desse porte desembarca simultaneamente milhares de pessoas em centros urbanos históricos e compactos, o impacto operacional torna-se gigantesco. Mobilidade, saneamento, coleta de resíduos, segurança, pressão sobre espaços públicos e experiência urbana passam a ser temas centrais. É exatamente esse modelo que cidades europeias começam a questionar.

Já o modelo home port é visto de maneira completamente diferente. Quando Barcelona funciona como porto de embarque ou desembarque, o turista tende a permanecer mais dias na cidade, utilizar hotéis, restaurantes, aeroportos, táxis, comércio e serviços diversos. O impacto econômico se espalha de maneira muito mais sofisticada pela economia local.

Mas existe ainda uma distinção essencial que raramente aparece no debate público: nem todo port of call produz o mesmo impacto urbano.

Cruzeiros de ultra luxo, expedição, boutique ou nicho operam em lógica completamente distinta dos chamados fun ships de massa. Navios menores, com passageiros de altíssimo ticket médio, costumam gerar fluxo muito mais qualificado, menos congestionamento urbano e maior consumo individual em gastronomia, cultura, comércio e experiências locais.

Curiosamente, Florianópolis parece caminhar na direção oposta. Parte do debate local ainda aposta na atração de grandes fun ships vinculados ao turismo massificado, priorizando volume de passageiros como principal indicador de sucesso. Trata-se de uma lógica quantitativa que pode produzir exatamente os problemas urbanos que hoje levam cidades como Barcelona a reverem seu modelo.

Há anos venho defendendo Florianópolis como home port, e não apenas como escala eventual de passagem. Isso exige visão estratégica e investimentos estruturantes em terminal marítimo, logística, mobilidade, receptivo, hotelaria e integração aeroportuária. Naturalmente, esse tipo de projeto demanda escala e planejamento de longo prazo. Houve quem classificasse essa visão como “megalomaníaca”, enquanto apresentava para a cidade soluções improvisadas, para vender gambiarras amadoras, incompatíveis com o potencial geográfico, turístico e econômico da Ilha de Santa Catarina.

E a própria experiência local já demonstrou isso. A escala-teste de cruzeiro realizada na Ilha de Santa Catarina anos atrás evidenciou improvisações e limitações técnicas incompatíveis com o padrão internacional exigido pela indústria marítima contemporânea.

Com ausência de preparação adequada acabaram expondo fragilidades operacionais que, na prática, constrangeram a imagem da cidade perante um setor extremamente profissionalizado e competitivo.

Florianópolis possui atributos raríssimos no Atlântico Sul: beleza cênica, gastronomia, cultura marítima, aeroporto internacional premiado, hotelaria qualificada e posicionamento estratégico entre Buenos Aires e o Sudeste brasileiro. O futuro inteligente talvez não esteja em receber mais passageiros por algumas horas, mas em transformar a cidade em ponto efetivo de partida e chegada de cruzeiros de maior valor agregado.

O debate amadureceu. A questão deixou de ser “cruzeiro sim ou não”. A pergunta agora é outra: quais cruzeiros, em que escala e com qual impacto sobre a cidade?

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