O Fundo Monetário Internacional reduziu recentemente a projeção de crescimento da economia mundial para 3,0% em 2026, atribuindo essa revisão, em grande parte, aos efeitos econômicos da guerra no Oriente Médio. O recrudescimento do conflito nas últimas semanas, com a retomada de ataques entre os beligerantes, aumenta a possibilidade de uma nova revisão para baixo caso as tensões persistam, especialmente se houver impactos mais duradouros sobre o petróleo, o transporte marítimo e o comércio internacional.

Mas o relatório do FMI contém uma observação que talvez seja ainda mais relevante do que a própria revisão das projeções. Segundo o organismo, a desaceleração da economia mundial seria ainda maior não fosse um fenômeno que poucos associam ao crescimento econômico: a inteligência artificial.

À primeira vista, essa afirmação parece contraditória. Afinal, como uma tecnologia ainda vista por muitos apenas como um chatbot, um tradutor ou um gerador de imagens pode influenciar a economia do planeta?

A resposta está na infraestrutura.

A inteligência artificial inaugurou um dos maiores ciclos de formação de capital das últimas décadas. Não porque milhões de pessoas estejam utilizando IA em seu cotidiano, mas porque empresas e governos passaram a investir valores sem precedentes para construir a infraestrutura necessária ao seu funcionamento.

Somente Amazon, Microsoft, Alphabet e Meta deverão investir aproximadamente US$ 650 bilhões em infraestrutura de inteligência artificial durante 2026, cerca de 60% acima do ano anterior. Esse montante supera o Produto Interno Bruto anual de países como Bélgica, Suécia ou Argentina.

Trata-se de investimentos em ativos físicos. Data centers, usinas de energia, linhas de transmissão, subestações elétricas, transformadores, sistemas de refrigeração, fibras ópticas, servidores, processadores especializados e fábricas de semicondutores. Um único campus de data centers pode exigir investimentos superiores a US$ 10 bilhões e consumir eletricidade equivalente à demanda de uma cidade de médio porte.

Essa talvez seja a maior diferença entre a revolução da inteligência artificial e as transformações tecnológicas anteriores. O crescimento econômico não decorre apenas da expectativa de ganhos futuros de produtividade. Ele já está ocorrendo porque a construção dessa infraestrutura mobiliza praticamente toda a cadeia industrial.

A indústria siderúrgica fornece aço. Mineradoras ampliam a produção de cobre, alumínio e terras raras. Fabricantes produzem transformadores, cabos e equipamentos elétricos. Empresas de engenharia projetam novas redes de transmissão. Construtoras erguem edifícios altamente especializados. Fabricantes de semicondutores operam no limite de sua capacidade produtiva.

Esse movimento produz reflexos que já chegam ao consumidor comum. Muitas pessoas passaram a antecipar a compra de memórias RAM, placas de vídeo e outros componentes eletrônicos receando aumentos de preços. Não se trata apenas de uma percepção de mercado. Fabricantes como Samsung, SK Hynix e Micron vêm direcionando parcela crescente de sua produção para memórias de altíssimo desempenho destinadas aos sistemas de inteligência artificial. Quanto maior a demanda desse setor, menor tende a ser a oferta relativa para computadores convencionais.

Ao mesmo tempo, a inteligência artificial passa a disputar recursos estratégicos com outras atividades econômicas.

O primeiro deles é a energia elétrica. A Agência Internacional de Energia estima que o consumo dos data centers deverá mais do que dobrar até 2030, aproximando-se de 950 TWh por ano, volume superior ao consumo anual de países inteiros. Essa demanda soma-se ao crescimento da mobilidade elétrica, da eletrificação da indústria e da expansão dos sistemas de climatização, pressionando investimentos em geração, transmissão e distribuição de energia.

Não por acaso, grandes empresas de tecnologia passaram a financiar diretamente projetos energéticos. Microsoft participa da reativação da usina nuclear de Three Mile Island. Amazon, Google e Meta anunciaram investimentos ou contratos relacionados a pequenos reatores nucleares modulares. A energia nuclear, considerada por muitos uma tecnologia do século passado, volta ao centro da discussão por oferecer exatamente aquilo que a inteligência artificial exige: fornecimento contínuo, estável e livre de emissões de carbono.

O segundo recurso estratégico é a água.

Embora a agricultura continue sendo, de longe, a maior consumidora de água doce do planeta, grandes data centers utilizam volumes significativos para refrigeração. Isso faz com que disponibilidade hídrica, clima e capacidade energética passem a influenciar diretamente a localização de novos investimentos.

Sob essa perspectiva, poucos países reúnem condições tão favoráveis quanto o Brasil. O país concentra cerca de 12% da água doce superficial do planeta, possui uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, enorme potencial de expansão da geração e disponibilidade territorial para grandes empreendimentos.

Entretanto, recursos naturais, por si sós, não atraem investimentos dessa magnitude.

Projetos que envolvem dezenas de bilhões de dólares exigem segurança jurídica, estabilidade regulatória, rapidez no licenciamento ambiental, infraestrutura de telecomunicações, previsibilidade tributária e capacidade de expansão das redes elétricas.

É justamente nesse ponto que alguns países começam a se destacar. O Paraguai, beneficiado pelo excedente energético de Itaipu e por custos competitivos de eletricidade, já aparece no radar de investidores interessados em infraestrutura intensiva em energia. A disputa deixa de ocorrer apenas entre empresas de tecnologia e passa a envolver países capazes de oferecer energia abundante, água, estabilidade institucional e ambiente favorável aos negócios.

Esse processo também transforma o mercado de trabalho.

A demanda por engenheiros eletricistas, engenheiros de computação, especialistas em sistemas de potência, automação, telecomunicações, semicondutores e inteligência artificial cresce em ritmo acelerado. A revolução digital produz um efeito aparentemente paradoxal: quanto mais software existe, maior se torna a necessidade de profissionais capazes de projetar e operar infraestrutura física.

Talvez essa seja a principal mensagem do relatório do FMI. A inteligência artificial ainda nem entregou plenamente os ganhos de produtividade que dela se esperam. Mesmo assim, já influencia as projeções da economia mundial porque desencadeou um gigantesco ciclo de investimentos em infraestrutura, energia, indústria e capital humano.

No século XX, dizia-se que o petróleo movia a economia mundial. No século XXI, a inteligência artificial mostra que a riqueza continuará dependendo de algo muito concreto: países capazes de produzir energia confiável, dispor de água, formar engenheiros qualificados e oferecer segurança institucional para transformar essas vantagens em investimento produtivo. É nessa nova geografia econômica que começa a ser decidido o futuro da próxima revolução industrial.

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