A Amazônia desperta interesse mundial — não apenas dos Estados Unidos

Empresas, governos, fundos e organizações de diferentes países mantêm interesses e atuação no Brasil; transformar somente os Estados Unidos em ameaça à soberania revela uma evidente seletividade política

Existe uma narrativa repetida há décadas no Brasil que precisa ser analisada com maior pragmatismo.

Sempre que se fala dos interesses dos Estados Unidos no país, especialmente na Amazônia, reaparecem expressões como “imperialismo americano”, “ameaça à soberania” ou até a velha afirmação de que “os americanos querem tomar a Amazônia”.

O problema dessa construção é que ela seleciona um país e praticamente ignora todos os demais.

A presença estrangeira no Brasil é uma realidade histórica.

Capital estrangeiro participa da indústria, mineração, energia, agronegócio, tecnologia, sistema financeiro, infraestrutura e de inúmeros outros setores da economia brasileira.

São empresas americanas.

Mas também chinesas.

Francesas.

Alemãs.

Britânicas.

Japonesas.

Norueguesas.

Sul-coreanas.

Italianas.

E de muitas outras nacionalidades.

Isso ocorre porque o Brasil é uma das maiores economias do mundo, possui mais de 200 milhões de habitantes, enorme mercado consumidor e extraordinária quantidade de recursos naturais.

Naturalmente desperta interesses internacionais.

A Amazônia amplia ainda mais essa atenção.

Estamos falando de uma região gigantesca, com água, biodiversidade, florestas, recursos minerais, potencial energético e possibilidades científicas e econômicas ainda difíceis de dimensionar.

Seria ingenuidade imaginar que somente os brasileiros possuem interesse nessas riquezas.

O mundo inteiro olha para a Amazônia.

A China possui interesses econômicos na região e empresas chinesas participam de investimentos relacionados a energia, mineração e infraestrutura.

A Noruega possui forte presença por meio de investimentos e financiamento ambiental.

Alemanha e Reino Unido também destinam recursos a projetos de preservação e desenvolvimento sustentável.

França possui interesses amazônicos inclusive por uma característica geográfica que muitas vezes esquecemos: a Guiana Francesa faz fronteira com o Brasil e integra territorialmente a própria região amazônica.

Japão mantém uma longa história de cooperação econômica e tecnológica no Brasil.

Empresas e capitais da Coreia do Sul também estão presentes na economia brasileira.

E os Estados Unidos, evidentemente, também possuem empresas, investimentos, organizações e interesses no país.

Onde está a novidade?

Nenhuma.

A questão importante é outra.

Por que o interesse americano é frequentemente apresentado como ameaça, enquanto a presença de outros países é tratada como investimento, parceria ou cooperação?

É aí que o debate deixa de ser apenas econômico ou geopolítico e passa a revelar forte componente político e ideológico.

Não existe coerência em defender investimentos estrangeiros quando possuem determinada origem e classificá-los automaticamente como ameaça à soberania quando vêm dos Estados Unidos.

A régua precisa ser a mesma.

Se uma empresa chinesa investe no Brasil dentro das nossas leis, é investimento estrangeiro.

Se uma empresa americana faz exatamente a mesma coisa, também.

Se a Noruega financia projetos ambientais na Amazônia mediante mecanismos aceitos pelo governo brasileiro, existe cooperação internacional.

O mesmo princípio deve valer para qualquer outra nação.

A nacionalidade, isoladamente, não transforma uma atividade legítima em ameaça à soberania.

Isso não significa que o Brasil deva abrir suas portas sem critérios.

Muito pelo contrário.

Qualquer participação estrangeira em setores estratégicos merece atenção.

Independentemente de sua origem.

Se determinado investimento compromete interesses nacionais, deve ser analisado.

Se uma organização estrangeira ultrapassa os limites permitidos pela legislação, deve ser fiscalizada.

Se existe exploração ilegal de nossas riquezas, precisa ser combatida.

Mas novamente a pergunta fundamental é:

por que a preocupação deveria valer para um país e não para todos?

A verdadeira defesa da soberania não escolhe nacionalidade conforme preferência ideológica.

O Brasil precisa saber quem atua em seu território, de onde vêm os recursos, quais interesses estão envolvidos e quais benefícios permanecem no país.

Vale para americanos.

Vale para chineses.

Vale para europeus.

Vale para qualquer estrangeiro.

Aliás, reduzir essa discussão aos Estados Unidos produz justamente o efeito contrário daquele pretendido.

Enquanto parte do debate público permanece ocupada com a velha narrativa de que “os americanos querem a Amazônia”, interesses econômicos de inúmeras nacionalidades continuam naturalmente presentes na região.

E estarão.

Porque a Amazônia possui valor mundial.

Não precisamos criar fantasmas para reconhecer isso.

Precisamos defender nossos interesses.

A soberania brasileira não depende de transformar determinado país em inimigo.

Depende da capacidade do próprio Brasil de estabelecer regras, fiscalizá-las e garantir que suas riquezas sejam utilizadas prioritariamente em benefício dos brasileiros.

Os Estados Unidos possuem interesses no Brasil?

Evidentemente.

A China também.

A Noruega também.

A França também.

A Alemanha também.

O Reino Unido também.

Japão e Coreia do Sul também.

E muitos outros países.

Assim funcionam as relações econômicas internacionais.

O que não faz sentido é considerar automaticamente legítimo o interesse de alguns e imperialista o interesse de outro.

Quando isso acontece, já não estamos discutindo soberania.

Estamos discutindo ideologia.

E a Amazônia é importante demais para ser utilizada como instrumento de narrativa política.

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