Mafra: memória do Contestado, erva-mate e uma cidade moldada pelas margens do Rio Negro

Foto: Pref Mafra

Mafra é uma cidade em que a história catarinense se encontra com a paisagem do Planalto Norte. Às margens do Rio Negro, em frente a Rio Negro, no Paraná, o município cresceu em uma região de passagem, disputa e encontro cultural. Sua origem está ligada ao antigo território de Rio Negro, que abrangia áreas dos dois lados do rio, e à presença de imigrantes europeus que chegaram ao longo do século XIX, entre alemães, bucovinos, poloneses, rutenos e russos. Essa mistura ajudou a formar uma identidade plural, ainda visível nas festas, na religiosidade, na gastronomia e no jeito comunitário da cidade.

A trajetória de Mafra também está profundamente ligada à Guerra do Contestado, conflito que marcou o Planalto Norte e o Meio-Oeste entre 1912 e 1916. A definição de limites entre Santa Catarina e Paraná, após esse período de disputa, abriu caminho para a criação e instalação do município em 1917. O próprio nome homenageia o jurista Manoel da Silva Mafra, o Conselheiro Mafra, figura associada à defesa dos interesses catarinenses na questão territorial.

Com mais de 50 mil habitantes, Mafra funciona como polo regional de comércio, serviços, educação e atividades ligadas ao campo. A economia tem raízes históricas na madeira e na erva-mate, produtos que ajudaram a desenvolver a região e ainda permanecem como marcas culturais importantes. Ao longo do tempo, a cidade diversificou sua base produtiva, mantendo vínculos com a indústria, a agricultura, o comércio e a prestação de serviços para municípios do entorno. A relação com Rio Negro também fortalece uma dinâmica urbana integrada, em que trabalho, compras, estudos e circulação diária muitas vezes atravessam a divisa estadual sem que a vida cotidiana perceba grandes fronteiras.

Socialmente, Mafra conserva características fortes de cidade interiorana, mas com papel regional relevante. As comunidades rurais, os bairros tradicionais e os grupos culturais mantêm viva a memória de diferentes origens étnicas. A presença polonesa, ucraniana, alemã e de outros grupos europeus aparece em festas, grupos folclóricos, celebrações religiosas e receitas familiares. Essa diversidade dá ao município uma personalidade própria dentro do Planalto Norte, menos homogênea e mais marcada pelo encontro de tradições.

Entre os casos diferenciados de Mafra está justamente essa combinação entre memória histórica e patrimônio natural. A cidade integra uma região de Mata de Araucárias, com rios, áreas verdes, florestas, cachoeiras e paisagens rurais que reforçam o turismo ecológico e de contemplação. O município também conta com atrativos ligados à paleontologia, como o Centro Paleontológico da Universidade do Contestado, criado para preservar e expor fósseis e evidências geológicas da região. É um diferencial raro: em Mafra, a história não aparece apenas nos conflitos humanos, mas também nas camadas antigas da terra.

A religiosidade e a memória popular também têm peso na identidade local. A figura do monge João Maria, associada ao imaginário do Contestado e a práticas de fé, aparece em referências turísticas e culturais da região, ajudando a manter viva uma dimensão espiritual muito presente no Planalto Norte. Em cidades como Mafra, essas narrativas fazem parte da forma como a população interpreta o passado e se reconhece no território.

No calendário cultural, Mafra se destaca por festas comunitárias e eventos que valorizam sua diversidade. Entre as celebrações citadas em guias turísticos estão a Festa de São José, a Festa de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, ligada à comunidade ucraniana, a Festa Bucovina, com manifestações folclóricas e comidas típicas, além da Festa do Produtor e das comemorações de aniversário do município em setembro. São eventos que unem cultura, economia e pertencimento, movimentando a cidade e reforçando o papel das comunidades na preservação das tradições.

Na culinária, Mafra carrega o sabor do Planalto Norte: pratos coloniais, pães, cucas, embutidos, carnes, receitas de origem europeia e a presença simbólica da erva-mate, que atravessa tanto a economia quanto os hábitos sociais da região. É uma gastronomia de interior, farta e familiar, em que a comida costuma aparecer como parte das festas, da religiosidade e da convivência comunitária.

Mafra é, no fim das contas, uma cidade de margens e encontros. Margem de rio, margem de estado, margem de uma história que colocou Santa Catarina e Paraná em disputa e depois em convivência. Entre o legado do Contestado, a força da erva-mate, a memória dos imigrantes e a paisagem de araucárias, o município construiu uma identidade densa, marcada por trabalho, diversidade e pertencimento. É uma cidade que ajuda a entender um pedaço essencial de Santa Catarina: aquele que nasceu longe do mar, mas profundamente conectado à terra, à fronteira e à memória.

Sobre o autor

Compartilhar em: