Depois de quase duas décadas, os indicadores da Bahia exigem respostas

Cobrar resultados de uma administração não significa desejar seu fracasso; números relacionados à educação, renda, violência e desenvolvimento mostram que o estado ainda enfrenta dificuldades profundas

Todo partido, ideologia ou político pode e deve ser cobrado pelos resultados de sua administração.

Essa cobrança não representa torcida pelo fracasso de um governo. Ao contrário, manifesta o inconformismo legítimo da população diante daquilo que está sendo entregue por aqueles que receberam a responsabilidade de administrar os recursos públicos e melhorar a vida dos cidadãos.

Governantes não são eleitos apenas para apresentar discursos, anunciar programas ou atribuir dificuldades aos seus antecessores. São escolhidos para enfrentar problemas, estabelecer prioridades e produzir resultados que possam ser percebidos pela população.

Essa regra precisa valer para todos.

Quando uma administração apresenta bons resultados, eles devem ser reconhecidos. Quando os indicadores permanecem ruins durante muitos anos, é legítimo perguntar por que as políticas adotadas não foram capazes de transformar a realidade.

Certamente existem exemplos semelhantes em outros estados e envolvendo partidos de diferentes correntes ideológicas. Esta análise, entretanto, está concentrada na Bahia, governada pelo Partido dos Trabalhadores desde janeiro de 2007.

Jaques Wagner comandou o estado entre 2007 e 2014. Rui Costa ocupou o governo de 2015 a 2022. Desde 2023, a administração está sob responsabilidade de Jerônimo Rodrigues.

Trata-se, portanto, de uma continuidade política próxima de completar duas décadas.

Esse período é suficientemente longo para que os resultados sejam avaliados com seriedade. Já não se trata de uma gestão que acaba de assumir ou de um projeto que ainda não teve tempo para demonstrar seus efeitos.

Uma administração iniciada em 2007 atravessou diferentes momentos da economia brasileira, contou com governos federais aliados durante parte expressiva desse período e teve tempo para planejar, executar, corrigir falhas e consolidar políticas públicas.

Por isso, a discussão não deve ficar restrita às intenções dos governantes. Precisa alcançar aquilo que efetivamente foi entregue à população.

A Bahia possui aproximadamente 14,8 milhões de habitantes e ocupa posição central na história, na cultura e na economia brasileira. É o estado mais populoso do Nordeste, possui enorme diversidade produtiva, riquezas naturais, atividade industrial, agronegócio, turismo e uma população reconhecida por sua capacidade de trabalho e criatividade.

Apesar desse potencial, os indicadores sociais e econômicos revelam uma realidade que exige respostas.

A inadimplência é um dos sinais mais visíveis dessa dificuldade. Em junho de 2026, aproximadamente 5,19 milhões de consumidores baianos estavam com o nome negativado.

Isso significa que uma parcela muito expressiva da população adulta não conseguiu pagar regularmente seus compromissos financeiros.

São dívidas com bancos, cartões de crédito, financeiras, empresas de serviços, comércio e outras atividades. O valor acumulado ultrapassa R$ 23 bilhões.

A inadimplência não pode ser atribuída exclusivamente ao governo estadual. Ela é influenciada pelos juros nacionais, pela inflação, pelo desemprego, pela renda das famílias, pelo custo de vida e pelo ambiente econômico brasileiro.

Mas um número dessa dimensão também expõe a fragilidade econômica de milhões de pessoas. Mostra famílias sem margem financeira, trabalhadores com rendimentos insuficientes e consumidores obrigados a escolher quais contas conseguirão pagar.

Quando mais de cinco milhões de pessoas em um único estado estão negativadas, não estamos diante de casos isolados de desorganização financeira. Estamos diante de um problema social e econômico de grandes proporções.

A educação apresenta outro dado difícil de aceitar.

Em 2025, a Bahia possuía aproximadamente 1,145 milhão de pessoas com 15 anos ou mais que não sabiam ler nem escrever um bilhete simples. Era a única unidade da Federação com mais de um milhão de pessoas nessa condição.

A taxa estadual de analfabetismo estava em aproximadamente 9,5%, quase o dobro da média nacional.

Esse indicador não pode ser tratado como apenas mais um número estatístico. Ele representa mais de um milhão de seres humanos privados de uma ferramenta básica para exercer a cidadania, compreender informações, acessar melhores empregos e conquistar autonomia.

O analfabetismo é resultado de problemas históricos e não nasceu durante os atuais governos. Contudo, depois de quase duas décadas de continuidade administrativa, permanece legítimo perguntar por que a transformação não avançou com maior velocidade.

Educação exige tempo, planejamento e continuidade. A Bahia teve continuidade política. Por isso, os resultados precisam ser comparados não apenas com o passado distante, mas também com aquilo que poderia ter sido alcançado durante esse período.

Um governo que permanece por tantos anos não pode utilizar indefinidamente a herança histórica como explicação para os problemas atuais.

A permanência no poder amplia a responsabilidade.

Também é necessário observar o desenvolvimento humano. A Bahia permanece nas últimas posições entre as unidades da Federação nos indicadores que combinam renda, educação e longevidade.

O Índice de Desenvolvimento Humano busca avaliar as condições de vida para além do crescimento econômico. Não basta um estado produzir riquezas se elas não se transformarem em oportunidades, conhecimento, saúde e qualidade de vida para a população.

O posicionamento da Bahia entre os estados com menor desenvolvimento humano mostra que os desafios não estão concentrados em apenas uma área.

A dificuldade envolve renda insuficiente, baixa escolaridade, desigualdade, acesso limitado a serviços e diferenças profundas entre regiões e municípios.

Esse quadro também aparece na dimensão do Bolsa Família.

Em março de 2026, aproximadamente 2,33 milhões de famílias baianas estavam atendidas pelo programa. O benefício alcança todos os 417 municípios do estado e representa investimento mensal superior a R$ 1,5 bilhão.

O Bolsa Família é uma política necessária para proteger famílias em situação de pobreza. Para milhões de pessoas, significa comida na mesa e alguma segurança diante da falta de renda.

A crítica não deve ser direcionada à existência do programa ou às famílias que precisam dele.

O que precisa ser analisado é a dimensão dessa dependência.

Quando mais de dois milhões de famílias de um estado necessitam de transferência direta de renda, existe uma demonstração clara de que a economia ainda não conseguiu gerar trabalho, remuneração e autonomia em quantidade suficiente.

O êxito de uma política social não pode ser medido apenas pelo número de pessoas incluídas. Também deve ser avaliado pela capacidade de criar condições para que as famílias, ao longo do tempo, deixem de necessitar do auxílio.

O objetivo não pode ser administrar permanentemente a pobreza. Precisa ser criar caminhos para superá-la.

Isso depende de educação, qualificação profissional, ambiente favorável ao investimento, infraestrutura, apoio aos pequenos negócios e criação de empregos com melhores salários.

O programa social deve funcionar como proteção e ponto de partida, não como destino definitivo de sucessivas gerações.

A segurança pública talvez revele o indicador mais dramático.

A Bahia permanece entre os estados com maiores taxas de mortes violentas intencionais do país. Dados recentes apontam índices próximos de 40 mortes para cada 100 mil habitantes.

A Secretaria da Segurança Pública da Bahia registrou mais de 3.600 homicídios dolosos em 2025, além de mortes decorrentes de intervenção policial, latrocínios e outras formas de violência letal.

São milhares de vidas perdidas em apenas um ano.

Cada número representa uma pessoa, uma família destruída e uma comunidade atingida pela insegurança.

A violência interfere em praticamente todas as áreas. Afasta investimentos, prejudica o turismo, eleva os custos das empresas, compromete o funcionamento das escolas e limita a liberdade dos cidadãos.

Também fortalece organizações criminosas, amplia a disputa por territórios e aumenta a sensação de que o Estado não consegue oferecer proteção suficiente à população.

Nenhum governo estadual controla sozinho todas as causas da criminalidade. O problema envolve fronteiras, tráfico de drogas e armas, legislação penal, sistema penitenciário, atuação do Judiciário e condições sociais.

Ainda assim, a segurança pública é uma responsabilidade direta dos estados.

Depois de quase duas décadas sob o comando do mesmo partido, a permanência da Bahia entre os locais mais violentos do país exige mais do que explicações. Exige revisão de estratégias, avaliação dos resultados e apresentação de medidas capazes de modificar o quadro.

Governos não podem ser avaliados apenas pelo volume de recursos aplicados, pelo número de programas anunciados ou pela quantidade de obras inauguradas.

Precisam ser avaliados pelos resultados.

Aumentar o orçamento da segurança não é suficiente se a população continua exposta a níveis extremos de violência.

Ampliar programas educacionais não basta se mais de um milhão de pessoas continuam analfabetas.

Manter uma ampla rede de proteção social é necessário, mas não pode ser considerado sucesso pleno enquanto milhões de famílias permanecem sem perspectiva de autonomia.

Anunciar desenvolvimento econômico não resolve a realidade de mais de cinco milhões de consumidores inadimplentes.

Os indicadores não explicam tudo, mas também não podem ser ignorados.

Eles não autorizam afirmar que nada foi feito durante esse período. Porém, permitem concluir que aquilo que foi realizado ainda não produziu resultados suficientes para alterar de maneira profunda a situação do estado.

Essa não é uma análise contra a Bahia, contra sua população ou contra determinado campo ideológico.

É uma cobrança dirigida a quem governa.

O mesmo critério deveria ser aplicado a qualquer partido que permanecesse tanto tempo no comando de um estado e, ao final desse período, ainda apresentasse indicadores tão preocupantes.

Não seria correto poupar uma administração de direita, centro ou esquerda diante de números semelhantes.

A régua precisa ser a mesma para todos.

A democracia não se resume ao direito de votar. Ela também pressupõe fiscalização, cobrança e avaliação permanente daqueles que receberam o poder.

Um governante pode possuir boas intenções, apresentar justificativas e defender suas escolhas. Mas, depois de tantos anos, o debate precisa ultrapassar as intenções e alcançar os resultados concretos.

A continuidade política oferece vantagens. Permite manter projetos, executar planejamentos de longo prazo e evitar interrupções provocadas por mudanças sucessivas de comando.

Ao mesmo tempo, essa continuidade elimina uma das principais justificativas utilizadas pelos governos: a falta de tempo.

Quase duas décadas representam cinco mandatos consecutivos.

É um período suficiente para que políticas educacionais alcancem uma geração de estudantes, para que estratégias de segurança sejam testadas e corrigidas e para que programas de desenvolvimento produzam efeitos sobre a renda e o emprego.

Se os indicadores continuam ruins, é necessário reconhecer que as escolhas adotadas não foram eficientes o suficiente para produzir a transformação esperada.

Isso não significa que exista uma solução simples ou que a troca de partido garanta, automaticamente, resultados melhores.

A oposição também precisa ser cobrada.

Criticar é mais fácil do que administrar. Quem deseja substituir o atual grupo político tem a obrigação de apresentar propostas concretas, explicar como pretende financiá-las e demonstrar por que suas políticas seriam mais eficientes.

O eleitor não deve trocar uma administração apenas por discursos diferentes. Precisa avaliar projetos, capacidade, histórico e compromisso com resultados.

O centro desta discussão não é determinar quem deve governar a Bahia.

Essa decisão pertence exclusivamente ao povo baiano.

São os eleitores do estado que conhecem sua realidade, convivem com seus problemas e possuem soberania para decidir qual projeto consideram mais adequado para o futuro.

O papel de uma análise jornalística é apresentar os fatos, contextualizar os números e fazer as perguntas que precisam ser feitas.

Depois de quase duas décadas de continuidade, a Bahia melhorou o suficiente?

As políticas adotadas conseguiram reduzir de forma consistente a pobreza, o analfabetismo, a violência e a dependência econômica?

Os recursos públicos foram direcionados às prioridades corretas?

Os resultados entregues correspondem ao tempo que o atual grupo político permaneceu no poder?

São perguntas legítimas.

Respondê-las não significa torcer contra o governo. Significa respeitar a população.

O cidadão que cobra melhores escolas não deseja o fracasso da educação. Deseja que ela funcione.

Quem exige segurança não torce pelo aumento da violência. Quer proteção.

Quem questiona a pobreza e a dependência de programas sociais não está atacando os beneficiários. Está defendendo que essas famílias tenham oportunidade de construir autonomia.

A cobrança é parte da democracia.

Em 2026, os baianos voltarão às urnas e terão a oportunidade de avaliar os governos iniciados em 2007, analisar as propostas apresentadas e decidir se desejam continuidade ou mudança.

Nenhum veículo de comunicação, partido ou liderança pode substituir essa escolha.

Os números, entretanto, precisam fazer parte do julgamento.

A Bahia possui riqueza, cultura, história, potencial econômico e uma população capaz de construir um futuro melhor. O que precisa ser discutido é se as políticas adotadas até aqui foram suficientes para transformar esse potencial em qualidade de vida.

Os indicadores mostram que ainda existe uma enorme distância entre o estado que a Bahia pode ser e a realidade enfrentada por milhões de baianos.

Depois de quase duas décadas, não basta mais apresentar intenções.

É necessário apresentar resultados.

O julgamento final pertence ao povo da Bahia, soberano para decidir o que considera melhor e qual caminho deseja seguir.

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