Democracia não pode ser defendida apenas quando o resultado interessa
Contestação de resultados eleitorais no Peru e na Colômbia expõe contradições no discurso político e cobra coerência de quem afirma defender as instituições.

Nem sempre “pau que bate em Chico, bate em Francisco”. O debate sobre 8 de janeiro de 2023 volta ao cenário político não para reabrir uma discussão já amplamente tratada, mas como pano de fundo para uma reflexão necessária sobre coerência democrática.
Lideranças e setores políticos brasileiros classificaram os atos de 8 de janeiro como tentativa de golpe. Essa foi, e continua sendo, uma leitura política e institucional presente no debate nacional. O ponto agora é outro: quando situações envolvendo contestação de resultados eleitorais e convocação de protestos ocorrem em países governados ou disputados por forças ideologicamente próximas, a régua será a mesma?
Recentemente, a América do Sul acompanhou episódios de tensão no Peru e na Colômbia. No Peru, o candidato derrotado Roberto Sánchez contestou o resultado eleitoral e convocou seus apoiadores para protestos. Na Colômbia, após uma disputa apertada, também houve acusações de fraude e forte tensão política envolvendo o presidente Gustavo Petro e o processo de transição.
A pergunta é direta: os mesmos atores políticos que cobram defesa incondicional da democracia no Brasil terão a mesma postura diante desses episódios? Vão condenar, com a mesma firmeza, qualquer tentativa de deslegitimar resultado eleitoral sem provas consistentes? Vão defender a estabilidade institucional também quando o vencedor não pertence ao seu campo político?
Democracia não pode ser uma palavra usada conforme a conveniência do momento. Se contestar eleições, alimentar tensão social e convocar mobilização contra resultados oficiais é grave em um país, também precisa ser grave em outro. A defesa das instituições não pode depender da ideologia de quem perdeu ou de quem venceu.
O próprio presidente Lula, que sempre tratou os atos de 8 de janeiro como ataque à democracia brasileira, deveria se posicionar com clareza quando episódios semelhantes ocorrem no continente. O silêncio pode até ser estratégico do ponto de vista político, mas dificilmente será coerente para quem afirma defender a democracia como princípio permanente.
Não se trata de comparar realidades diferentes como se fossem idênticas. Cada país tem sua história, suas instituições e seus conflitos. Mas existe um ponto comum que não pode ser relativizado: resultado eleitoral precisa ser respeitado, e qualquer contestação deve ocorrer dentro da lei, com provas, responsabilidade e respeito às instituições.
A democracia exige coerência. Quem condena a ruptura quando ela vem de um lado precisa condená-la também quando surge do outro. Do contrário, não está defendendo a democracia. Está apenas defendendo o próprio campo político.
O Brasil precisa amadurecer esse debate. Democracia não pode ser bandeira de ocasião, nem instrumento retórico de campanha. Ela só tem valor real quando vale para todos: aliados e adversários, vencedores e derrotados, direita e esquerda.
Calar diante de episódios que contrariam o discurso que se prega em casa não fortalece as instituições. Pelo contrário, expõe seletividade. E seletividade, quando o assunto é democracia, quase sempre cobra um preço alto.
