ALINHAMENTO, DESCONFIANÇA, QUEDA E VOTO ÚTIL: O QUE A PESQUISA VERITÁ REVELA SOBRE O SENADO EM SANTA CATARINA

Os dados do Instituto Veritá, divulgados pela CNN Brasil, são claros e organizam o cenário eleitoral de forma objetiva. Carlos Bolsonaro lidera com 33,5% das intenções de voto. Carol De Toni aparece em segundo lugar, com 19,9%. O petista Décio Lima registra 14%. Já Esperidião Amin surge com apenas 8,3%.
A estrutura da disputa está definida. O primeiro lugar está consolidado. A eleição se concentra na segunda vaga. E é exatamente nesse ponto que o cenário se torna politicamente sensível.
A evolução das pesquisas mostra uma mudança relevante. Amin saiu de cerca de 21% no final de 2025, ainda competitivo, para 20,1% no início de abril, mantendo-se no jogo, e caiu para 8,3% no levantamento mais recente. Essa queda não é marginal. Ela altera completamente sua posição na disputa.
Ao mesmo tempo, Carlos Bolsonaro cresce e consolida liderança, enquanto Carol De Toni se mantém estável na disputa pela segunda vaga. O petista Décio Lima permanece estável, aguardando um cenário favorável.
Esse cenário favorável surge justamente a partir da divisão da direita.
Amin entrou diretamente na disputa contra Carlos Bolsonaro e Carol De Toni, que são os nomes definidos por Jair Bolsonaro e pelo governador Jorginho Mello. Ao fazer isso, deixou de atuar como uma alternativa complementar e passou a competir com o próprio eixo principal do seu campo político.
Essa decisão tem consequência matemática imediata. Em uma eleição com duas vagas, o campo majoritário tende a eleger dois nomes quando vota de forma coordenada. Quando esse mesmo campo se divide entre três candidaturas, o resultado muda. O voto se fragmenta, e abre-se espaço para um terceiro nome.
Esse terceiro nome, no caso, é o petista Décio Lima.
Não se trata de intenção declarada, mas de efeito prático. Com 14%, Décio não lidera, mas está suficientemente próximo para crescer se a divisão persistir. Ele não precisa avançar muito. Precisa apenas que os demais não se concentrem.
Essa dinâmica é percebida pelo eleitor.
Parte do eleitorado de direita passou a ver a candidatura de Amin não apenas como uma alternativa, mas como um fator de risco. A percepção que se forma é direta. Ao disputar com os candidatos de Jair Bolsonaro e Jorginho Mello, Amin contribui para dividir votos que, somados, seriam suficientes para garantir duas vagas.
Essa percepção é reforçada por outros elementos. A participação de Amin em agendas nos Estados Unidos ao lado de quadros ligados ao PT, em contexto relacionado ao tarifaço de Donald Trump e ao debate sobre lawfare contra Jair Bolsonaro, gerou desconforto político. Sua integração em uma chapa de oposição ao governo estadual, ao lado de partidos com setores alinhados ao governo Luiz Inácio Lula da Silva, aprofundou essa leitura.
Nos últimos meses, ao tentar reforçar um discurso de alinhamento ideológico, distinto de sua trajetória historicamente pragmática, Amin passou a enfrentar um novo problema. Parte do eleitorado interpretou essa mudança como artificial, como tentativa de reposicionamento, e não como convicção.
O resultado é a dúvida.
E dúvida, em eleição, reduz crescimento.
Ao mesmo tempo, cresce o voto pragmático. Parte do eleitorado passa a considerar não apenas alinhamento, mas também poder. A possibilidade de Flávio Bolsonaro disputar a Presidência leva a um raciocínio direto. Eleger Carlos Bolsonaro pode significar maior proximidade com o centro do poder federal e maior capacidade de influência para Santa Catarina.
Esse raciocínio é simples e objetivo. O eleitor busca maximizar o peso político do estado.
A soma desses fatores explica o cenário atual. Carlos Bolsonaro lidera porque reúne base consolidada e voto útil. Carol De Toni se mantém competitiva porque está no mesmo eixo político. O petista Décio Lima permanece estável e depende da fragmentação da direita.
Amin enfrenta uma dificuldade mais profunda. Seus números refletem não apenas uma queda, mas uma mudança na forma como é percebido. Ao entrar em disputa direta com os candidatos do seu próprio campo político, passou a ser visto por parte do eleitorado como um fator de divisão.
A eleição ao Senado em Santa Catarina tem hoje uma lógica clara. Se a direita votar coordenada, elege dois nomes. Se se dividir, abre espaço para o candidato do PT.
Os dados do Instituto Veritá mostram que essa dinâmica já está em curso e que o eleitor começou a reagir a ela.
Um dado adicional da própria pesquisa reforça essa leitura. No cenário de voto consolidado, que corresponde à soma dos dois votos que cada eleitor pode dar para o Senado, Carlos Bolsonaro aparece com 24,7% e Carol De Toni com 23%, liderando juntos com ampla vantagem. Esperidião Amin sobe para 11,3% e o petista Décio Lima fica com 10,2%, ambos ainda distantes do topo. Esse recorte é particularmente relevante porque reflete de forma mais fiel o comportamento real do eleitor, que dispõe de dois votos, e indica que já há uma tendência de concentração dentro do mesmo campo político. A liderança simultânea de Carlos e Carol nesse cenário sugere formação de voto coordenado e reforça que a disputa principal permanece concentrada entre os mesmos nomes, enquanto os demais seguem fora do eixo competitivo.
Há ainda um vetor menos explícito, porém politicamente relevante. A crítica recorrente ao fato de Carlos Bolsonaro ser “de fora” pode produzir um efeito inverso ao pretendido. Em um estado que recebeu, nos últimos anos, grande fluxo de migrantes internos e estrangeiros, muitos deles vindos de regiões onde associam sua experiência a governos de esquerda, esse tipo de abordagem tende a ser percebido como bairrismo e até como rejeição indireta a esse próprio grupo. Para esse eleitor, que não apenas migrou, mas o fez buscando um ambiente político e econômico diferente, há identificação ideológica com candidaturas que se colocam de forma clara contra a esquerda. Esse mesmo mecanismo se observa também entre jovens de direita, que tendem a rejeitar discursos baseados em origem geográfica e a valorizar posicionamento político e identidade. Nesse contexto, a tentativa de desqualificação pela origem não afasta, aproxima. Em vez de enfraquecer, pode reforçar o vínculo e gerar solidariedade com quem também é visto como “de fora”, mas representa, na percepção desses eleitores, os valores que motivaram suas escolhas.
