O governo aumenta os custos e oferece uma dívida como solução

Anúncio de financiamento para adaptar empresas às mudanças na jornada repete uma fórmula conhecida: a decisão vem do poder público, mas a conta permanece com quem produz.

Dario Durigan Foto Gov.br

O cenário se repete. O poder público toma decisões que alteram os custos das empresas e, quando chega a discussão sobre como absorver seus efeitos, apresenta uma saída conhecida: oferecer crédito. O empresário ganha acesso ao dinheiro, assume uma dívida e continua responsável por pagar a conta.

Novos tributos, obrigações trabalhistas, exigências burocráticas e interpretações judiciais podem modificar o planejamento de negócios de todos os tamanhos. Cada mudança exige adaptação. E adaptação consome tempo, recursos e capacidade de investimento.

O exemplo mais recente está no fim da escala 6×1 e na redução da jornada com manutenção dos salários. Nesta sexta-feira (16), o ministro da Fazenda, Dario Durigan, declarou: “Já temos uma previsão de ter linhas de crédito específicas para essa transição”. A manifestação se referia tanto à reforma tributária quanto à mudança na jornada de trabalho.

A frase merece atenção. Uma linha de crédito pode ajudar a financiar equipamentos, tecnologia e reorganização da produção. Mas empréstimo precisa ser devolvido. Se uma empresa passa a enfrentar uma despesa permanente maior, tomar dinheiro emprestado não elimina esse custo. Acrescenta ao seu planejamento parcelas, juros e vencimentos.

A proposta do ministro inclui capacitação e ganhos de produtividade. Esse é um objetivo necessário. O problema é tratar o financiamento como resposta suficiente para dificuldades que dependem também de infraestrutura, qualificação, simplificação e previsibilidade.

Melhorar as condições de trabalho é uma aspiração legítima. Para que o avanço se sustente, sua implementação precisa considerar a realidade de quem mantém os empregos. Há empresas capazes de reorganizar processos e ganhar eficiência. Outras terão dificuldades para cobrir os mesmos horários de funcionamento com uma jornada menor.

Quando os custos aumentam sem ganhos correspondentes, a pressão aparece em algum lugar: na rentabilidade, nos preços, nos investimentos ou na capacidade de contratar. O repasse ao consumidor encontra seu próprio limite, porque o orçamento das famílias também está apertado.

Essa discussão ocorre num ambiente empresarial já fragilizado. Em julho, o país chegou ao recorde de 9,2 milhões de empresas inadimplentes, com R$ 238,6 bilhões em dívidas em atraso. São números que exigem cuidado antes de apresentar mais endividamento como alívio.

O empresário que enfrenta dificuldades precisa de condições para recuperar sua capacidade de produzir e vender. Crédito pode fazer parte dessa recuperação, desde que exista perspectiva de gerar receita suficiente para pagá-lo.

É cômodo anunciar uma mudança e depois oferecer ao setor privado um financiamento para se adaptar. A responsabilidade pública precisa alcançar também os custos das decisões.

Produzir e consumir está cada vez mais difícil no Brasil. Facilitar o acesso a empréstimos pode ajudar em situações específicas. Reduzir os obstáculos que tornam esses empréstimos necessários deveria receber a mesma atenção.

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