Há uma metáfora que se instalou no vocabulário jurídico com a naturalidade silenciosa das
modas: a ideia de que o direito é um jogo. Que o advogado é um jogador habilidoso. Que a vitória depende da estratégia certa, do movimento certeiro, da jogada que o adversário não esperava. Que
vencer — não necessariamente ter razão — é o objetivo. Quem atua há anos na advocacia e acompanha de perto as condutas profissionais sabe que essa visão não é inofensiva. Ela se disseminou, ganhou status de sofisticação e passou a ser ensinada, repetida e admirada. É preciso dizer com clareza: ela está errada.


Não é difícil entender por que a imagem do jogo ganhou força. O processo tem partes, tem
regras, tem fases, tem resultado. Existe um vencedor e um perdedor. Há movimentos táticos — a
escolha do foro, o momento de apresentar uma prova, a forma de redigir uma petição. Vista de fora, a disputa judicial pode mesmo lembrar uma partida de xadrez. Mas a metáfora revela mais sobre quem a usa do que sobre o que o direito é. Ela conforta quem prefere pensar no cliente como peça, no processo como tabuleiro e na justiça como placar. E é exatamente aí que começa o problema.

O trabalho do advogado não começa com a pergunta “qual estratégia adotar?”. Começa com uma pergunta anterior, mais fundamental: “o meu cliente tem direito?”. É dessa resposta que tudo o mais deve decorrer. O estudo da legislação aplicável, a pesquisa da jurisprudência dominante, a análise dos fatos à luz do ordenamento — esse é o núcleo da atividade jurídica. A estratégia, quando existe, é consequência do direito, não substituta dele. Um médico que decide o tratamento antes de examinar o paciente não está sendo estratégico — está sendo negligente. Com o advogado, a lógica é a mesma. A técnica jurídica existe para identificar onde o direito protege o cliente e como fazer essa proteção valer. Não para fabricar argumentos onde não há fundamento, nem para neutralizar direitos alheios por pura habilidade retórica.


Tratar o direito como jogo não é apenas uma imprecisão conceitual. É um desvio ético com
consequências práticas — e quem analisa condutas profissionais sabe que esse desvio aparece com frequência crescente. Quando o resultado da demanda passa a depender mais da estratégia do que do mérito, algo grave acontece: a justiça vira variável dependente da perícia dos jogadores. Quem pode pagar pelo jogador mais habilidoso leva vantagem — não por ter mais direito, mas por ter mais recurso para financiar a jogada. O direito, que deveria equalizar, passa a amplificar desigualdades. Além disso, a cultura do “jogo jurídico” incentiva práticas que corroem a credibilidade do sistema: procrastinação deliberada, argumentos sabidamente infundados apresentados apenas para ganhar tempo, uso abusivo de recursos como instrumento de pressão. Tudo isso tem um nome técnico — abuso do direito processual. Mas antes de ser uma infração, é sintoma de uma visão distorcida do que é o direito e para que ele serve. E quando essa visão se instala fundo o suficiente, o passo seguinte é mais grave: o direito deixa de ser instrumento de justiça para se tornar mercadoria — negociada nos bastidores, acessível a quem tem as conexões certas ou os recursos para obtê-las. São situações que, infelizmente, já não surpreendem tanto quanto deveriam.

Aqui está o ponto que a metáfora do jogo apaga completamente: por trás de cada processo há
uma vida real. O trabalhador que espera o reconhecimento de um vínculo empregatício para ter acesso à aposentadoria. A mulher que busca na Justiça a proteção que não encontrou em outro lugar. O pequeno empresário cuja sobrevivência depende do desfecho de uma cobrança indevida. O pai ou a mãe em disputa pela guarda dos filhos — pessoas concretas, com histórias concretas, que entregaram ao advogado algo que não tem preço: a confiança de que alguém vai lutar por elas com seriedade e com honestidade. Jogos têm reinício. A partida termina, o tabuleiro se fecha, as peças voltam para a caixa. A vida não tem esse botão. A sentença que transita em julgado é, muitas vezes, o capítulo que define o que vem a seguir — ou o que não vem mais. Reduzir isso a uma jogada é uma forma sofisticada de desumanizar quem mais precisa do direito.


É preciso fazer uma distinção que a moda do “jogo” tende a embaralhar — e que o uso acrítico
de ferramentas de inteligência artificial no exercício da advocacia só aprofunda: existe uma diferença enorme entre sofisticação técnica e esperteza processual. Delegar a uma máquina o que exige julgamento humano, responsabilidade ética e conhecimento do caso concreto não é eficiência — é mais uma forma de tratar o direito como produto, e o cliente como dado. Conhecer profundamente a legislação, dominar a jurisprudência dos tribunais superiores, saber identificar a tese jurídica mais consistente para o caso concreto — isso é competência. É o que o cliente merece e o que o exercício da advocacia exige. Não é jogo. É ciência aplicada a situações humanas. O advogado que estuda, que pesquisa, que constrói sua argumentação sobre bases sólidas não está jogando bem. Está fazendo o seu trabalho com seriedade. E há uma diferença moral relevante entre os dois: um age para que o direito funcione, o outro age apesar de o direito existir.

A disseminação da linguagem do jogo no direito não é inocente. Ela muda a forma como os
advogados se veem, como são vistos e, em última análise, como agem. Se o advogado é um jogador, o cliente é um apostador. Se o processo é uma partida, a ética é um estorvo. Se vencer é tudo, o mérito é detalhe. A advocacia, tal como definida pelo Estatuto da OAB e reconhecida pela Constituição, é função essencial à Justiça. Não é profissão de estrategistas. É profissão de juristas — de pessoas que conhecem o direito e o aplicam em defesa de outras pessoas. Essa identidade não é retórica. É a razão pela qual o advogado tem prerrogativas que nenhum outro profissional liberal possui: porque o que ele faz importa para além do seu cliente, importa para o funcionamento da ordem jurídica como um todo.


Direito não é xadrez. Processo não é tabuleiro. Cliente não é peça. O que está em disputa nos
fóruns e tribunais deste país são direitos — e direitos são expressão de dignidade, de reconhecimento, de proteção. Tratá-los como fichas de um jogo é uma elegante maneira de esquecer que, do outro lado de cada petição, há uma pessoa esperando que o direito seja, de fato, direito. Nas ficções, a vida pode ser um jogo. Na realidade — e o direito lida com a realidade — ela nunca é.

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