Kassab falou demais? Declaração sobre Lula cria desgaste para o próprio PSD
Presidente do PSD integra a chapa de Ronaldo Caiado, mas afirmou que o Centrão está com Lula; reação nas redes expõe o risco político da declaração

A declaração de Gilberto Kassab de que “o Centrão está com Lula” pode até refletir a leitura política que ele faz do momento eleitoral.
Mas, para o próprio PSD, pegou muito mal.
Kassab não é um analista externo observando a eleição.
É presidente nacional do PSD e, mais importante, candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por Ronaldo Caiado.
Uma chapa que pede votos justamente afirmando representar uma alternativa à polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro.
É aí que surge a contradição.
Se o presidente do partido e candidato a vice afirma publicamente que o Centrão está com Lula e que Flávio Bolsonaro não possui chances de vencer, qual mensagem está transmitindo ao eleitor que considera votar em Caiado?
A declaração rapidamente produziu reação política.
O senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, acusou o PSD de atuar como uma espécie de “linha auxiliar” de Lula e questionou a verdadeira finalidade da candidatura de Caiado.
Nas redes sociais, também começaram a circular manifestações defendendo que eleitores da direita deixem de votar em candidatos do PSD, inclusive nas disputas proporcionais.
É cedo para saber a dimensão desse movimento.
Redes sociais possuem enorme capacidade de amplificar indignações momentâneas, mas nem sempre conseguem transformar essas manifestações em votos ou perda efetiva de apoio eleitoral.
Somente as urnas mostrarão se haverá consequência real.
Mas politicamente o problema existe.
Porque a fala de Kassab alimenta uma interpretação que já vinha sendo feita por parte do eleitorado: a de que candidaturas intermediárias serviriam também para fragmentar votos no primeiro turno, ampliar bancadas no Congresso e aumentar o poder de negociação dos partidos depois da eleição.
Não significa que exista qualquer “acordo secreto” ou jogo previamente combinado.
Não há elementos para fazer essa afirmação.
Mas política também é percepção.
E, quando o próprio presidente de um partido que possui candidato à Presidência declara que outro candidato está reunindo o apoio do Centrão, ele naturalmente oferece combustível para esse tipo de leitura.
A situação se torna ainda mais delicada porque Caiado tenta convencer o eleitor de que sua candidatura possui viabilidade própria.
Kassab, entretanto, ao mesmo tempo em que ocupa a vice dessa chapa, praticamente antecipa sua leitura sobre o confronto principal da eleição e reconhece a aproximação de partidos de centro com Lula.
Para o eleitor, a pergunta aparece naturalmente:
Afinal, o PSD está disputando a Presidência para vencer ou está preparando sua posição para depois da eleição?
Essa dúvida pode ser injusta com a candidatura.
Mas foi a própria declaração de Kassab que abriu espaço para ela.
Existe também uma diferença entre aquilo que dirigentes partidários discutem nos bastidores e aquilo que dizem publicamente.
Nos bastidores, é absolutamente normal que partidos avaliem cenários, probabilidades de vitória, possíveis alianças e participação em governos futuros.
Quando esse cálculo é verbalizado durante uma campanha, porém, o efeito muda.
O eleitor começa a fazer sua própria leitura.
E parte dele pode concluir que está diante de um jogo no qual as posições finais já estariam sendo negociadas antes mesmo da votação.
Esse sentimento é especialmente perigoso para candidaturas proporcionais.
Deputados federais, estaduais e senadores dependem da identificação do eleitor com a legenda. Se uma parcela relevante da base política interpretar que o partido está trabalhando em direção contrária às suas preferências, o desgaste pode ultrapassar a chapa presidencial.
É justamente por isso que começaram a surgir manifestações pedindo que a reação alcance também os candidatos do PSD ao Congresso e às assembleias estaduais.
Se isso ganhará força suficiente para alterar resultados, ninguém sabe.
Pode desaparecer em poucos dias.
Pode permanecer restrito às redes.
Ou pode transformar-se em voto.
A eleição responderá.
O fato é que declarações políticas possuem consequências.
Kassab talvez tenha apenas verbalizado aquilo que considera uma realidade: parte importante do Centrão prefere negociar com Lula porque conhece sua forma de governar e sua capacidade de construir maioria parlamentar.
Mas existe uma enorme diferença entre analisar esse cenário e fazê-lo enquanto ocupa a vice de um candidato que pretende derrotar justamente Lula.
Nesse sentido, o problema da declaração não está necessariamente em ser verdadeira ou falsa.
Está no efeito que ela produz.
Se o PSD deseja convencer o eleitor de que Ronaldo Caiado representa uma alternativa real, seu próprio presidente precisa transmitir a mesma mensagem.
Caso contrário, ficará cada vez mais difícil afastar a impressão de que a candidatura presidencial possui também outro objetivo: fortalecer o partido, ampliar sua bancada e chegar ao próximo governo — seja ele qual for — com maior capacidade de negociação.
Talvez seja apenas pragmatismo.
Talvez seja estratégia.
Mas, para parte do eleitorado, começa a parecer jogo de cartas marcadas.
E política, principalmente em período eleitoral, não é feita apenas de intenções.
Também é feita de percepções.
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