Enxadrista Campeão
Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Domingo Oliveira Botran era espanhol, daí seu apelido. Pessoa de múltiplos talentos: músico, desenhista, entalhador. Culto, leitor assíduo, tinha conhecimento extraordinário das mais variadas ciências: história, geografia, matemática, filosofia… Mas era sua compreensão da vida e dos homens, sua humildade e seu desprendimento que o tornavam especial, sábio!
Exilou-se no Brasil, no pós-guerra espanhol, fugindo da ditadura de Franco. Depois de passar por São Paulo, foi morar em Antonina, pequena cidade do litoral paranaense. Vivia dos seus entalhes. Exímio profissional, ofício aprendido com bons mestres espanhóis, recebia encomendas do Brasil todo.
Tinha uma paixão: o xadrez. Era dos bons, integrava o ranking dos 20 melhores da América do Sul. Reconhecido na cidade e no estado, não costumava alardear sua biografia, principalmente para desconhecidos.
Num torneio, acontecido em Curitiba, antes de se iniciar sua participação, cruzou com outro enxadrista, este amador e gabola. Imagino que amador, porque não conhecia o ranking nem reconheceu o Espanhol; gabola porque não perdeu tempo para se exibir. Sem pedir licença, sentou-se numa cadeira vazia, ao redor da mesa onde tomávamos café, interrompendo nossa saudade. Perguntou se também estávamos ali para participar do torneio. Respondi-lhe que não, que era apenas curioso. Domingo permaneceu em silêncio. Entendendo que estava frente a simples simpatizantes ou aprendizes do ofício, sem que lhe fosse pedido, despejou discurso sobre as várias formas de iniciar uma partida, buscando “encurralar” os adversários no menor tempo possível: abertura russa, abertura sueca, etc…
Chamado pelo alto-falante do ginásio, foi ao encontro do seu destino (depois, soube ter sido eliminado na partida inicial).
Como o Espanhol não fez nenhum comentário, perguntei-lhe:
– Você conhece essas estratégias do sujeito, não conhece?
– Conheço… – limitou-se a responder Domingo.
– E por que não atalhou do homem? – insisti.
– Pra quê? Vai que ele tem alguma coisa pra me ensinar…
Domingo Oliveira Botran, o Espanhol, era bom mestre e sábio como poucos.
Faleceu recentemente na Espanha, para onde voltou.
