O jornalista e apresentador Cacau Menezes chamou atenção, nesta terça-feira, no Balanço Geral, da NDTV, para um aspecto revelador das eleições catarinenses. Flávio Bolsonaro conquistou 69,80% dos votos em Joinville, 68,83% em Blumenau e 68,56% em Itajaí. Em Florianópolis, apenas 48,63%, quase vinte pontos percentuais abaixo daquelas cidades. Jorginho Mello, reeleito governador no primeiro turno, também encontrou na capital resistência muito superior à registrada nesses municípios. Os números convidam a examinar algo mais profundo que preferências partidárias: a formação econômica, social e cultural das cidades e suas diferentes concepções sobre o papel do Estado.

É simplista atribuir o comportamento eleitoral de Florianópolis aos movimentos migratórios recentes. As diferenças vêm de longe. Joinville e Blumenau foram moldadas pelo empreendedorismo de origem alemã, responsável pela formação de importantes parques industriais, pela valorização do trabalho e pela consolidação de uma tradição empresarial que atravessou gerações. Itajaí, beneficiada pelo dinamismo econômico do Vale, desenvolveu sua vocação portuária, logística e comercial. São cidades onde a iniciativa privada vicejou, multiplicando empresas, indústrias, empregos e oportunidades. Territórios de trabalhadores celetistas, empresários, comerciantes e microempreendedores habituados a produzir, investir, assumir riscos e enfrentar a concorrência.

Florianópolis seguiu outro caminho. Como sede do governo estadual, concentra repartições públicas, órgãos de fiscalização, tribunais, autarquias e instituições federais. Soma-se a esse universo a UFSC, tradicional centro de influência intelectual da esquerda, com participação expressiva na formação do ambiente político e cultural da cidade. Essa concentração institucional favorece uma mentalidade na qual o Estado ocupa posição central, frequentemente superior àquela reservada à iniciativa privada. O funcionalismo, seus organismos representativos e o meio acadêmico exercem influência sobre o debate público muito além de sua expressão numérica.

O pensador francês Brivael Le Pogam oferece uma chave esclarecedora para compreender esse fenômeno. Em sua reflexão sobre os builders e os takers, distingue aqueles que constroem, empreendem e criam riqueza dos que se especializam em capturar, administrar e controlar aquilo que outros produziram. Os primeiros submetem suas ideias ao julgamento implacável da realidade. Os segundos prosperam num universo de cargos, credenciais, procedimentos e relações de poder, frequentemente protegidos das consequências de suas próprias decisões. Enquanto os builders multiplicam oportunidades, os takers disputam o controle dos recursos existentes. É a diferença entre criar prosperidade e extrair vantagens daquilo que foi produzido.

Essa oposição ajuda a compreender a distância entre os polos industriais catarinenses e um centro administrativo fortemente marcado pela burocracia. Empresários, trabalhadores e profissionais independentes precisam apresentar resultados, pois dependem de clientes, produtividade e eficiência. Já determinadas repartições sobrevivem mesmo quando suas decisões produzem atrasos, custos e oportunidades desperdiçadas. A existência de um procedimento passa a justificar outro, as exigências se multiplicam e o interesse público termina soterrado pela lógica da autopreservação institucional. Os problemas deixam de ser resolvidos e passam a ser administrados indefinidamente.

A história portuária de Florianópolis oferece uma metáfora eloquente desse processo. A cidade já teve um porto movimentado por cargas e passageiros, servido pela navegação da tradicional família Hoepcke. O cais Rita Maria recebia navios, mercadorias, viajantes e novidades de outras regiões do país. O vapor de passageiros e cargas Carl Hoepcke, que entre 1927 e 1960 ligou Florianópolis a outros portos brasileiros, simbolizou uma época de relações comerciais e marítimas muito mais intensas. A embarcação levava o nome do empresário de origem alemã Carl Hoepcke, pioneiro da industrialização e da navegação comercial catarinense, ele próprio exemplo histórico daqueles que constroem riqueza e desenvolvimento. Na década de 1960, o encerramento daquela atividade representou a perda de parte importante da vocação econômica local. O aterramento da Baía Sul, no decênio seguinte, consolidou fisicamente o afastamento entre o centro histórico e o mar.

Enquanto Florianópolis perdia protagonismo portuário, Itajaí consolidava sua posição como grande centro de movimentação de mercadorias. Décadas depois, a diferença permanece visível. Itajaí recebe operações de embarque e desembarque de cruzeiristas, Balneário Camboriú e Porto Belo integram os roteiros de grandes companhias marítimas, e São Francisco do Sul também participa desse mercado. Florianópolis, apesar de sua geografia privilegiada, das belezas naturais e do enorme potencial turístico, permanece fora das operações regulares desse segmento. Uma cidade insular que perdeu seu porto e ainda não conseguiu recuperar plenamente sua vocação marítima.

Nem mesmo a tão celebrada indústria de tecnologia demonstrou força suficiente para romper esse padrão. O setor transformou Florianópolis em referência nacional, produziu empresas inovadoras, atraiu investimentos e revelou a capacidade empresarial existente na cidade. Entretanto, o avanço tecnológico não se converteu em modernização equivalente da administração pública, tampouco alterou substancialmente o ambiente político local. Parte desse ecossistema, historicamente ligado à UFSC, pode inclusive funcionar como núcleo de resistência às mudanças necessárias. Desenvolver soluções digitais de ponta não significa necessariamente defender liberdade econômica, desburocratização ou menor intervenção estatal. É perfeitamente possível inovar nos negócios e permanecer apegado à preservação dos mecanismos tradicionais de poder.

O fenômeno encontra paralelo internacional nas próprias redes sociais. Plataformas que prometeram democratizar a comunicação acabaram envolvidas em sucessivas controvérsias sobre censura, restrições à circulação de opiniões conservadoras e interferência no debate político. O próprio Mark Zuckerberg reconheceu excessos nos mecanismos de moderação da Meta, enquanto o X, sob Elon Musk, passou a defender mais ostensivamente a liberdade de expressão. A ironia é evidente: ferramentas concebidas para ampliar a comunicação também podem servir para controlar aquilo que as pessoas estão autorizadas a dizer. O progresso técnico, desacompanhado de princípios liberais, corre o risco de produzir instrumentos cada vez mais sofisticados de vigilância e controle. A modernidade das máquinas não assegura a modernidade das ideias.

A política municipal para a população em situação de rua oferece exemplo particularmente constrangedor. Florianópolis chegou ao final de 2025 com mais de três mil pessoas nessa condição, concentração desproporcional em relação a outros grandes municípios catarinenses. O problema tornou-se uma das principais bandeiras de Bruno Souza, ex-secretário municipal de Assistência Social e agora deputado estadual eleito, que vem criticando duramente os resultados e a condução da política adotada na cidade. Sua passagem pela prefeitura foi marcada por divergências sobre o Restaurante Popular e a gestão da Passarela da Cidadania. Posteriormente, contratos relacionados à assistência social tornaram-se objeto de questionamentos por órgãos de controle.

Enquanto outros municípios catarinenses adotam medidas mais firmes para enfrentar a ocupação desordenada dos espaços públicos, Florianópolis permanece prisioneira de uma concepção assistencialista que parece mais preocupada em administrar a permanência das pessoas nas ruas do que em retirá-las dessa condição. Multiplicam-se serviços, órgãos e despesas públicas, mas o contingente continua ostensivamente presente. O atendimento emergencial acaba convertido em atividade administrativa permanente, sem que os resultados correspondam à dimensão da máquina mobilizada. Há uma distância considerável entre oferecer assistência e perpetuar mecanismos incapazes de restituir autonomia aos seus destinatários. A primeira exige soluções; os segundos asseguram a sobrevivência da burocracia.

Outra incoerência profundamente enraizada no ambiente político local está na complacência com o consumo de drogas em espaços públicos, frequentemente romantizado como manifestação de liberdade individual. A mesma sociedade que tolera sua presença ostensiva nas ruas, praças e praias clama por mais segurança, policiamento e tranquilidade. A normalização dessa prática em ambientes coletivos enfraquece as regras de convivência, alimenta a percepção de desordem e entra em conflito com a tranquilidade exigida pelos próprios cidadãos. Pretende-se desfrutar dos benefícios da ordem sem assumir integralmente as responsabilidades necessárias à sua preservação. A liberdade individual não elimina os deveres impostos pela vida em sociedade.

Também é sintomática a simpatia que o deputado estadual Marquito, do PSOL, desperta em determinados círculos florianopolitanos, inclusive entre pessoas que se apresentam como críticas da esquerda. Candidato à prefeitura em 2024, conquistou novo mandato na Assembleia Legislativa em 2026, recebendo mais da metade de seus votos na própria capital. Sua trajetória ambientalista e seu discurso urbano conferem apelo a um projeto identificado com a esquerda socialista. Marquito reúne atributos que o tornam eleitoralmente atraente para esse campo ideológico: uma liderança capaz de apresentar antigas concepções políticas sob a linguagem contemporânea da sustentabilidade, da inovação social e da participação comunitária. O discurso ecológico funciona, nesse caso, como ponte entre a militância tradicional e segmentos que não se reconhecem como esquerdistas.

A composição política da própria administração municipal acrescenta outro elemento a esse quadro. O prefeito Topázio Neto está filiado ao Podemos, presidido em Santa Catarina pela deputada Paulinha, cuja trajetória começou na Juventude Socialista do PDT, partido ao qual permaneceu vinculada durante 32 anos. Foi dirigente estadual e nacional daquela organização e ocupou, durante três anos e meio, o cargo de diretora nacional de qualificação do Ministério do Trabalho e Emprego, em Brasília, na administração federal petista. Sua identificação com o trabalhismo de Leonel Brizola chegou à homenagem prestada ao antigo líder no nome de uma escola idealizada e construída durante sua gestão como prefeita de Bombinhas.

Já Fábio Botelho, ex-chefe de gabinete e candidato de Topázio à Assembleia Legislativa, disputou a vice-prefeitura de Florianópolis em 2016 pelo Partido Verde, integrando a chapa encabeçada por Elson Pereira, do PSOL, numa coligação da qual também participava a Rede. Dez anos depois, conquistou seu mandato parlamentar como representante político do atual prefeito. A facilidade com que essas trajetórias transitam entre diferentes legendas e alianças ilustra a peculiar permeabilidade ideológica da política local. Os discursos se adaptam, as siglas se reorganizam e antigas afinidades passam a conviver com novas conveniências eleitorais. O eleitorado catarinense caminha majoritariamente numa direção, enquanto importantes personagens da administração da capital carregam histórias políticas vinculadas a outra.

Essa realidade adquire significado ainda maior quando se observa que Santa Catarina reelegeu um governador de direita com votação expressiva, mas Florianópolis continua marcada pela influência de setores políticos e intelectuais da esquerda. A cidade possui empresários talentosos, companhias competitivas, profissionais qualificados e condições naturais privilegiadas. Falta transformar essa energia privada em uma gestão igualmente comprometida com resultados, capaz de substituir a interminável produção de normas, pareceres e exigências por decisões que se traduzam em melhorias perceptíveis na vida cotidiana.

As consequências aparecem na paisagem urbana. Mobilidade comprometida, infraestrutura insuficiente, espaços públicos degradados, oportunidades econômicas desperdiçadas e milhares de pessoas vivendo nas ruas contrastam com a prosperidade de tantas outras regiões catarinenses. Projetos que poderiam ampliar o desenvolvimento econômico enfrentam obstáculos administrativos, políticos e ideológicos, enquanto questões elementares atravessam sucessivos governos sem solução satisfatória. Discute-se exaustivamente o modelo ideal de sociedade, mas faltam respostas para dificuldades que o cidadão encontra ao sair de casa.

Parte da elite intelectual local cultiva a pretensão de representar o pensamento mais avançado do país. A sofisticação de seu discurso, contudo, não encontra correspondência na qualidade da infraestrutura nem na eficiência dos serviços urbanos. Multiplicam-se teorias, comissões, debates e proclamações de superioridade moral, ao passo que a realidade permanece muito aquém das possibilidades econômicas do município. A distância entre a retórica e seus efeitos tornou-se uma característica persistente da vida pública florianopolitana.

Os resultados eleitorais apresentados por Cacau Menezes expõem, assim, diferenças políticas que encontram correspondência em distintas trajetórias de formação econômica e institucional. Florianópolis dispõe de capital humano, recursos naturais, localização estratégica e capacidade empresarial para figurar entre as cidades mais dinâmicas do país. Seu desafio é libertar esse potencial das amarras de uma mentalidade que encontra mais razões para impedir do que caminhos para realizar.

Enquanto outros municípios catarinenses continuam construindo sua prosperidade, Florianópolis corre o risco de permanecer satisfeita com o prestígio de suas próprias abstrações. Pretende estar na dianteira do pensamento, mas frequentemente chega atrasada à realização.

É a vanguarda do atraso.

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