A RETA FINAL NAS REDES

A três dias do primeiro turno das eleições, cada frase mal colocada, cada notícia e cada movimento dos candidatos pode ser transformado quase instantaneamente em cortes, vídeos, memes e mensagens distribuídas para milhões de eleitores. A velocidade tornou-se decisiva e favorece quem consegue ocupar o debate antes que o adversário reorganize a própria comunicação.
Flávio Bolsonaro intensificou a campanha pelo voto útil, mirando principalmente eleitores de candidaturas menores igualmente identificadas com o campo antipetista, mas situadas fora do bolsonarismo, que hoje é a única força organizada da direita brasileira. O movimento mira especialmente os votos de Ronaldo Caiado, Augusto Cury, Renan Santos e Romeu Zema, justamente quando Lula e Flávio concentram amplamente a disputa e o contingente de indecisos diminui.
Os resultados começam a aparecer nas pesquisas. Na Futura divulgada nesta quarta-feira, Flávio chegou a 42,2% no primeiro turno, contra 39,4% de Lula, avançando 1,8 ponto em relação à rodada anterior, enquanto o petista cresceu 1 ponto. No segundo turno, Flávio marcou 49% contra 43,5%. É um movimento compatível com a estratégia de concentrar o voto antipetista, reduzir o espaço das candidaturas menores e atrair parte dos eleitores que ainda estavam indecisos ou inclinados ao branco e nulo. A reta final nas redes, portanto, não produz apenas barulho: coincide com um avanço mensurável de Flávio justamente quando a campanha pelo voto útil foi intensificada.
É nesse eleitorado ainda disponível que a pressão aumenta. O voto útil pode capturar quem prefere outro candidato, mas considera impedir a continuidade do PT uma prioridade maior. Pode alcançar também parte dos indecisos e daqueles que cogitam votar branco ou nulo. Quanto mais a eleição se concentra nos dois primeiros colocados, mais difícil fica para as candidaturas intermediárias convencer seus próprios eleitores a permanecer nelas até domingo.
A última semana entregou acontecimentos capazes de alterar diariamente o ambiente político. A medida provisória que proibiu as bets tornou-se um dos assuntos de maior repercussão nas redes sociais e nos aplicativos de mensagens, enquanto outros temas que vinham pressionando Flávio perderam espaço. Também ganhou enorme circulação a falsa afirmação de que ele pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
Depois veio a frase de Lula em Belém. Ao falar sobre a resistência masculina ao exame de próstata, afirmou que as mulheres aprendem a receber toque desde pequenas. O trecho ganhou circulação nacional em poucas horas. Flávio, Nikolas Ferreira e outros nomes da direita passaram a repercuti-lo imediatamente, transformando uma declaração feita num contexto de saúde pública em um dos principais assuntos políticos daqueles dias.
O mais revelador é a velocidade com que uma crise substitui a outra. Quem amanhece acuado pode chegar à noite na ofensiva.
É impossível observar essa engrenagem sem lembrar Carlos Bolsonaro. Em 2018, ele esteve no núcleo da estratégia digital que ajudou a eleger o pai. Hoje, além de conduzir a própria campanha ao Senado em Santa Catarina, onde lidera ao lado de Caroline de Toni e disputa diretamente com Esperidião Amin, percorrendo intensamente o Estado, trabalha pela eleição do maior número possível de senadores bolsonaristas pelo país e também pela vitória de Flávio. A agenda tornou-se ampla e intensa nessas três frentes distintas, porém ligadas estrategicamente entre si, a ponto de não conseguir dar retorno pessoal, presencialmente ou por mensagens, a tantos apoiadores quanto gostaria.
Oito anos depois, essa estrutura ficou muito maior. Parlamentares, influenciadores, páginas, canais e milhares de perfis independentes conseguem colocar determinado assunto diante de milhões de pessoas quase simultaneamente. Uma publicação individual pode alcançar mais gente do que muita peça oficial cuidadosamente produzida.
É nesse ambiente que a campanha pelo voto útil encontra terreno especialmente fértil. Ela conversa com o eleitor antipetista de Caiado, Cury, Zema ou Renan Santos, disputa quem ainda não escolheu candidato e tenta trazer de volta quem cogitava simplesmente anular o voto. Quanto mais a eleição assume a feição de confronto entre Lula e Flávio, maior se torna a pressão sobre quem continua fora dos dois polos.
A semelhança com 2018 está justamente aí. Não basta estar nas redes, porque todos já estão. É preciso compreender sua velocidade, explorar rapidamente os erros do adversário e transformar milhares de apoiadores numa gigantesca rede de distribuição política. A três dias do primeiro turno, algumas horas podem valer mais do que semanas inteiras de campanha.
