A história dos canários nas minas de carvão
Prof. Gretz
Palestrante, consultor, autor do livro “A Força do Entusiasmo”
(E-mail: gretz.gretz.com.br).

Entra em vigor agora em 26 de maio, no Brasil, uma nova regulamentação de segurança de trabalho. Ao ver essa notícia, me lembrei de uma história de passarinhos cantando em minas de carvão na Inglaterra do século passado. O que têm em comum estes dois assuntos?
Vamos ver. Os mineiros ingleses levavam um canário para as profundezas das minas porque o pássaro era extremamente sensível aos gases tóxicos. Se parasse de cantar, era o sinal de alerta máximo. Essa prática de segurança, embora primitiva, salvou milhares de vidas, e os canários só foram oficialmente “aposentados” em 1986, quando sensores eletrônicos assumiram o posto.
Hoje, a tecnologia avançou, mas o conceito fundamental permanece: precisamos estar atentos aos sinais de perigo antes que o problema apareça. E que sinais são esses no ambiente de trabalho moderno?
Até pouco tempo, a segurança no trabalho era vista quase exclusivamente como uma questão física. Capacetes, luvas e treinamentos na operação das máquinas eram os pilares. No entanto, o cenário mudou. A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), nova diretriz da segurança em nosso país, traz para o centro do debate os riscos psicossociais, que muitas vezes eram ignorados.
Isso significa que fatores como sobrecarga, pressão excessiva e ambientes tóxicos — que agem como estressores silenciosos — agora devem ser mapeados e mitigados com o mesmo rigor que um risco de queda, por exemplo. A motivação é urgente: os afastamentos por transtornos mentais subiram mais de 15% em 2025 e mais que dobraram nos últimos anos. É o “gás invisível” dos nossos tempos.
Para as empresas, isso exige uma redefinição de prioridades. Não basta garantir que o chão de fábrica esteja limpo; é preciso zelar pelo equilíbrio emocional de cada colaborador. Afinal, estados mentais como pressa, exaustão, depressão, frustração, estresse crônico e desmotivação, muitas vezes causados por assédio moral, bullying ou falta de diálogo e de empatia, estão por trás de 95% dos acidentes. A segurança não é apenas um conjunto de regras; ela começa na mente e no coração.
Nesse novo contexto, o papel da CIPA e das SIPATs torna-se ainda mais vital. Eu mesmo, quando iniciei minha carreira como presidente da CIPA na Volkswagen, vivenciei essa realidade. Mais tarde, como Diretor de RH na Portobello e, ao longo de quatro décadas, como palestrante em mais de 5 mil eventos empresariais, percebi que o lado humano jamais pode pesar menos que o técnico. Minhas palestras buscam justamente esse despertar: mostrar que a segurança é uma responsabilidade compartilhada, feita com humor, emoção e comprometimento de todos.
Essa preocupação com a saúde integral não é uma exclusividade brasileira. A NR-1 está alinhada à ISO 45.001, a norma internacional que também destaca a importância da saúde mental no ambiente de trabalho. Quando as pessoas se sentem seguras e valorizadas, a produtividade aumenta e o absenteísmo despenca. É uma estratégia inteligente de gestão e um imperativo ético.
Curiosamente, voltando aos nossos pequenos heróis alados, os mineiros tratavam os canários com imenso carinho. Muitos criavam gaiolas especiais, com um cilindro de oxigênio para reanimar o passarinho quando necessário. Nos dias de hoje não se usariam mais animais para situações como esta, mas esse cuidado histórico pode nos servir se inspiração. Afinal, uma empresa saudável é feita de pessoas que se sentem seguras para trabalhar com a alegria de um canário cantando ao ar livre. O principal não é apenas o que falamos, mas o sentido que isso faz na vida de quem nos ouve.
