Perspectiva Política: os recados das urnas e os acordos do segundo turno
As negociações políticas iniciadas após o primeiro turno, as derrotas de antigos aliados e a renovação da bancada catarinense na Câmara Federal marcam esta edição.
As primeiras movimentações
O primeiro dia após as eleições já apresentou acontecimentos políticos importantes. No Rio de Janeiro, Anthony Garotinho desistiu do recurso apresentado contra o indeferimento de sua candidatura ao Governo do Estado. Seus votos permaneciam anulados sub judice e, caso sejam definitivamente retirados do cálculo, Douglas Ruas (PL) poderá ultrapassar os 50% dos votos válidos e ser declarado eleito ainda no primeiro turno. A definição, entretanto, continua dependendo da Justiça Eleitoral.

No cenário nacional, a federação formada por União Brasil e PP negocia apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro no segundo turno. Entre as contrapartidas discutidas está o compromisso do PL com a permanência de Davi Alcolumbre, do União Brasil, na presidência do Senado Federal. A negociação demonstra que o apoio envolve não apenas afinidade política, mas também a divisão de espaços de poder a partir de 2027.
Existe, porém, uma contradição nesse movimento. Enquanto sua federação negocia apoio a Flávio Bolsonaro, Alcolumbre incluiu na pauta do Senado a PEC que prevê o fim da escala de trabalho 6×1, uma das principais bandeiras do presidente Lula para o segundo turno. A proposta começará a ser discutida nesta terça-feira, com sessões previstas também para quarta e quinta-feira.
Ainda não sabemos qual será a decisão do PL sobre a condição apresentada pela federação. O fato político, entretanto, está colocado: União Brasil e PP negociam apoio a Flávio condicionado à permanência de Alcolumbre, enquanto o próprio senador movimenta uma pauta eleitoralmente favorável ao adversário. A política permite articulações amplas, mas algumas delas exigem explicações.
O custo das rupturas
As eleições voltaram a demonstrar que mudanças bruscas de posicionamento político podem provocar uma reação expressiva do eleitorado. É natural e legítimo que qualquer parlamentar reveja suas convicções. O problema surge quando, ao “trocar de lado”, passa a atacar justamente o grupo político e os eleitores que contribuíram para sua eleição.
Nesse movimento, o político corre o risco de perder sua base original sem conquistar a confiança do novo campo escolhido. As derrotas da senadora Soraya Thronicke, na tentativa de reeleição, e do deputado federal Otoni de Paula são os exemplos mais recentes. Ambos romperam com o bolsonarismo, aproximaram-se de Lula e não conseguiram renovar seus mandatos.
Evidentemente, nenhuma derrota eleitoral pode ser explicada por apenas um fator. Entretanto, situações semelhantes já ocorreram com Alexandre Frota e Joice Hasselmann, eleitos em 2018 com forte apoio bolsonarista e derrotados depois do rompimento. Com as redes sociais, o eleitor acompanha mais atentamente as posições, os discursos e as mudanças de cada representante. Rever ideias é legítimo; agir como se o passado político nunca tivesse existido costuma ter um preço nas urnas.
A projeção confirmada pelas urnas
Na coluna publicada em 24 de setembro, apresentamos uma análise sobre a possível renovação da bancada de Santa Catarina na Câmara dos Deputados. Após avaliar as nominatas partidárias, a trajetória dos novos postulantes e a atuação dos parlamentares que buscavam a reeleição, projetamos uma mudança entre cinco e sete das 16 cadeiras destinadas ao estado.
Concluída a apuração, a renovação alcançou exatamente seis cadeiras, ficando no centro do intervalo estimado pela coluna. Duas mudanças já estavam definidas antes da eleição: Carol de Toni deixou a disputa pela Câmara para concorrer ao Senado, sendo eleita, enquanto Carlos Chiodini integrou como candidato a vice-governador a chapa liderada por João Rodrigues.
As outras quatro mudanças decorreram das derrotas de parlamentares que tentavam permanecer na Câmara. Ismael dos Santos, Jorge Goetten, Fábio Schiochet e Valdir Cobalchini não conseguiram renovar seus mandatos. A análise não apontava quem seria eleito ou derrotado, mas procurava interpretar o cenário político. O resultado confirmou que os critérios utilizados permitiram identificar corretamente o tamanho da renovação que se aproximava.
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