Livre Arbítrio

Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Entre os viventes que povoam a terra, só nós homens temos a capacidade de escolher os próprios caminhos. No entanto, se podemos escolher “o que plantar”, também é certo que só iremos colher “aquilo que plantamos”.

Há muitos anos, o Brasil passou por momentos difíceis. Os militares tomaram o poder e impuseram regime político duro. Não se podia discordar deles. Quem fosse “do contra” acabava preso.

Eu era jovem, tinha pouco mais de vinte anos, estudava na faculdade. Além de ser “do contra”, carregava comigo o ímpeto comum em jovens inexperientes. Meu pai discordava de mim, das minhas idéias e, principalmente, do meu jeito estouvado de levar as coisas. No entanto, nunca me proibiu de seguir meu caminho. Mas não perdia oportunidade para me lembrar que todos os homens têm livre arbítrio.

Como era de se esperar, um dia fui preso. Um amigo que servia no quartel ao qual fui recolhido avisou minha família. Meu pai deixou a cidade pequena onde morava, viajou quatro horas de ônibus até chegar na cidade grande para me visitar na prisão.

Eu estava sozinho numa cela. Ele chegou de mansinho – estava de terno, o que era raro – e ficou me olhando pelas grades. Quando me aproximei dele, perguntou se eu estava bem, se tinha passado fome, se tinham me torturado. Não, eu estava sendo bem tratado. Só a cama era de cimento e fazia um frio de lascar no duro inverno de Curitiba. Ele contou que a mãe tinha mandado uns cobertores, que o coronel pediu para revistar antes de me entregar.

Sem muitas delongas – meu pai era homem de poucas palavras e raras manifestações de carinho – perguntou se podia dizer para a mãe que eu estava bem, porque ela, claro, tinha ficado preocupada. Disse-lhe que sim, que podia sossegar a mãe.

– Então tchau, até mais ver – despediu-se e caminhou pelo corredor de saída.

Eu o chamei de volta. Ele retornou. Perguntou se tinha esquecido alguma coisa.

– Não, não esqueci nada – disse a ele –, mas preciso de um advogado para me tirar daqui.

Ele ficou me olhando bem fundo nos olhos, antes de lembrar:

– Filho – quando queria me dar um puxão de orelha, sempre me chamava assim –, lembra da conversa sobre livre arbítrio? Eu não coloquei você aí dentro. Se você entrou sozinho, vai ter que aprender a sair sozinho.

Ele foi embora sem arrumar advogado para me livrar da cadeia. Lembro que, na hora, fiquei com raiva, com muita raiva. Mas, como ele previu, acabei saindo sozinho da prisão. E também aprendi – ainda que a duras penas – o verdadeiro sentido do tal do livre arbítrio. Só nós somos responsáveis pelo que fazemos e pelas conseqüências dos nossos atos, ninguém mais!

Com o passar do tempo, voltei a me aproximar do meu pai. Aprendi a respeitar aquele homem que só tinha o segundo ano primário. Hoje sei que deve ter sofrido mais que eu para me ensinar um aprendizado que me acompanhou pela vida afora.

História acontecida nos duros anos da década de 60.

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