Pára-raios de Deus

Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Seria injusto afirmar que Maria Antonieta sempre fora desafortunada, como que perseguida por todos os azares do mundo. Também não se podia dizer que fosse triste. Silenciosa e retraída, sim. Parecia envolta numa bruma permanente que lembrava milonga de drama portenho, que a fazia infeliz. Nunca ninguém ouviu uma gargalhada sua, um riso mais aberto e franco. Seus momentos de alegria e prazer era manifestados por sorrisos discretos e contidos.

Walter, apaixonado, não percebeu os sintomas dessa profunda insatisfação com tudo e todos: amizades curtas, permanentemente renovadas; projetos abandonados quando ainda em curso.

Os anos de casamento foram vividos no compasso de um tango visceral. Incompreensível para os espectadores da platéia, com sua incomum carga dramática que, no entanto, não finda em tragédia. A verdade é que nunca brigaram, nem quando namorados, nem enquanto casados.

Sob o olhar complacente de Walter, os planos e projetos de Maria Antonieta que não eram abandonados, simplesmente naufragavam, num mar revolto de contratempos.

Quando Maria Antonieta começou a freqüentar terreiro de umbanda, Walter não se incomodou. Na verdade, achou a experiência “exótica” e saudável, até porque a mulher passou a ter uma explicação plausível para muitos dos seus desacertos: Se não era “encosto”, era “expiação dos pecados de vidas passadas”…

Na seqüência, Maria Antonieta descobriu a literatura fantástica. Histórias de bruxas e magos povoaram, por bastante tempo, seu imaginário. Os sinais da mudança tornaram-se visíveis: tatuagem de anjo no pescoço, adesivo de bruxa no carro. O passo seguinte foi a adesão total e incondicional ao mundo esotérico. Não dava passo sem consultar os astros, não iniciava qualquer atividade sem consultar o tarô, só se relacionava com pessoas que tivessem passado pelo teste da numerologia…

Um detalhe continuava imutável: o azar insistia em persegui-la. Maria Antonieta descobrira o motivo de cada uma das suas agruras: o destino.

Também foi o destino o responsável pela separação do casal. Como foi o destino que lhe tomou a parte que lhe coube no patrimônio – na verdade uma pequena fortuna –, quando do divórcio.

Maria Antonieta emergiu desse período ainda mais insatisfeita, infeliz, perseguida pelo azar. Se, enquanto casado, Walter não percebera a evolução lenta e contínua do fantástico que tomara conta da vida de Maria Antonieta, agora descasado, passou a ter visão clara dos fatos. E a não aceitar passivamente os argumentos e o jeito de viver da ex-mulher.

Quando, uma vez mais, em uma das conversas, Maria Antonieta atribuiu o azar ao destino, Walter colocou o dedo na ferida:

– Você nunca se deu conta de que tem mania de pára-raios de Deus?!

– Como assim?

– A vida não é esse tango que você insiste em dançar. Já parou pra pensar que os problemas podem não estar nos outros, mas nesse seu jeito de enxergar a vida? Tenho certeza de que, no dia em que você mudar, as coisas podem começar a dar certo pra você.

– Você diz isso porque não é com você! Você não me entende, ninguém me entende! Sou mesmo uma desgraçada, só não me mato porque não tenho coragem…

– Está aí mais uma chantagem sua!

– Lá vem você de novo.

– Claro, a chantagem pode ser direta, objetiva. Ou disfarçada. Aliás, depois que nos separamos, passei a reparar que você não é a única a se dizer perseguida pelo azar, pelo destino, pela infelicidade do mundo. Tem muita gente, igualzinha a você, como se tivessem sido produzidos em série. Por que toda a desgraça do mundo só cai sobre as mesmas pessoas?

– Queria que você estivesse em meu lugar. Ia ver como é triste…

– Não vale drama. Não mais. Você não quer que eu acredite que Deus é esse ser injusto e mesquinho, capaz de escolher você – e seus iguais – para sacanear dia após dia. Me poupe! Não quero mais dançar esse tango. Estou em ritmo de valsa, pazes feitas com Deus e o mundo…

Histórias da alma humana…

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