JÚLIA E ANITA

Bastou circular a notícia de que a deputada federal Júlia Zanatta poderá receber o título de cidadã honorária de Laguna para que surgissem manifestações de contrariedade. Entre as objeções, uma particularmente curiosa: seria um absurdo conceder semelhante distinção à parlamentar justamente na terra de Anita Garibaldi. A indignação pressupõe uma incompatibilidade entre as duas mulheres que não encontra sustentação na história. Afinal, o que haveria na biografia da heroína lagunense, em suas convicções ou em seu temperamento, que a colocasse em oposição à personalidade combativa da deputada catarinense? A resposta exige conhecer Anita para além dos monumentos, das celebrações cívicas e das conveniências ideológicas de seus admiradores contemporâneos.
A proposta apresentada à Câmara Municipal tem fundamentos concretos. Júlia destinou recursos para infraestrutura urbana e saúde, além de conquistar expressiva votação entre os eleitores lagunenses. Sua reeleição, em 4 de outubro, com 560.223 votos, fez dela a deputada federal mais votada da história de Santa Catarina. O reconhecimento pretendido, portanto, não surgiu de algum capricho político ou de uma provocação à memória da cidade, mas da atuação de uma parlamentar que mantém vínculos eleitorais e administrativos com o município.
Existem, aliás, coincidências que conferem singularidade à comparação. Anita nasceu em Laguna, em 1821; Júlia, em Criciúma, em 1985. Ambas são filhas do sul catarinense, embora de épocas profundamente diferentes. A primeira uniu seu destino ao de Giuseppe Garibaldi e participou das lutas republicanas que antecederam a unificação italiana. A segunda, descendente de italianos, carrega no sobrenome Zanatta a herança de uma imigração que transformou economicamente e culturalmente aquela região de Santa Catarina. A geografia, a ligação com a Itália e a projeção alcançada muito além de suas cidades natais compõem um encontro de circunstâncias que a controvérsia acabou tornando ainda mais interessante.
Ana Maria de Jesus Ribeiro, posteriormente conhecida como Anita Garibaldi, ingressou na história durante a Revolução Farroupilha, movimento deflagrado em 1835 contra o centralismo do Império brasileiro. Entre suas principais lideranças estavam militares, estancieiros e grandes proprietários rurais, inconformados com a política tributária, as dificuldades econômicas da província e a concentração das decisões políticas no Rio de Janeiro. A proclamação da República Catarinense, em Laguna, em 1839, integrou essa insurreição. Eram republicanos, federalistas e defensores de interesses regionais, não militantes de algum movimento socialista que a imaginação contemporânea possa retrospectivamente reconhecer como seu.
A aproximação com algumas das bandeiras defendidas por Júlia Zanatta é mais plausível do que seus críticos talvez desejassem admitir. A resistência à centralização política, a contestação da carga tributária, a defesa da propriedade e a valorização da autonomia regional encontram correspondência em parte importante do discurso da parlamentar. Evidentemente, a Revolução Farroupilha pertence a outro universo institucional e econômico, mas seria intelectualmente extravagante atribuir àquele movimento a identidade ideológica dos partidos de esquerda brasileiros atuais. Mais difícil ainda seria encontrar elementos que permitissem transformar Anita em adversária imaginária de Júlia.
A mulher que acompanhou Garibaldi nas campanhas do Brasil, do Uruguai e da Itália demonstrou coragem pessoal em episódios suficientemente documentados, enfrentando combates, perseguições e condições de vida extremamente adversas. Entretanto, a personagem que conhecemos também resultou de um longo processo de elaboração histórica. Sua participação nos acontecimentos foi sendo revestida de atributos heroicos por escritores, memorialistas, políticos e governos interessados em transformá-la em símbolo de diferentes causas. A Anita real, cuja biografia dispensa exageros, acabou frequentemente confundida com a figura monumental construída depois de sua morte, em 1849.
Esse fenômeno foi estudado pelo historiador Antônio Manoel Elíbio Júnior, em pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Santa Catarina. A consagração da heroína envolveu sucessivas apropriações políticas, inclusive durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, quando sua imagem foi incorporada às celebrações nacionalistas de um governo autoritário. A trajetória de Anita serviu, assim, a projetos cívicos e políticos que nem sempre guardavam correspondência com suas próprias circunstâncias históricas. Poucas demonstrações seriam tão eloquentes da facilidade com que personagens do passado podem ser transformados em instrumentos das disputas do presente.
Também merece atenção a tentativa de atribuir à revolucionária lagunense convicções socialistas com base na evolução política posterior de Giuseppe Garibaldi. Anita morreu em 1849, apenas um ano depois da publicação do Manifesto Comunista. Seu companheiro viveu até 1882 e, ao longo das décadas seguintes, aproximou-se de movimentos socialistas europeus. Transportar essas posições posteriores para a biografia da mulher que morreu muito antes constitui evidente anacronismo. Anita pertenceu ao republicanismo revolucionário do século XIX, e não às disputas ideológicas surgidas ou consolidadas posteriormente.
Há outro aspecto que merece consideração. Júlia Zanatta alcançou projeção política justamente por não dissimular suas convicções. Sua atuação parlamentar, as manifestações públicas e os enfrentamentos com adversários fazem parte de uma personalidade que dificilmente seria confundida com a docilidade. A expressiva votação conquistada em Santa Catarina demonstrou a existência de um eleitorado que reconhece nessa postura uma qualidade, independentemente do desconforto que ela provoque em seus opositores. Anita, evidentemente, enfrentou riscos incomparavelmente maiores, próprios de campanhas militares e revoluções armadas. A aproximação entre ambas não depende de equiparar suas realizações, mas de reconhecer uma característica de temperamento que atravessa as diferenças históricas.
Sob esse aspecto, Júlia bem poderia ser considerada, figurativamente, uma reencarnação de Anita Garibaldi. A imagem ganha particular força quando se recorda a recente comemoração eleitoral da deputada catarinense, que apareceu empunhando um relho para simbolizar a extraordinária vantagem obtida nas urnas, recorrendo à conhecida expressão regional de quem vence de relho. Quem sabe aquele instrumento associado à cavalaria, tão familiar ao universo em que viveu Anita, não tenha atravessado simbolicamente os séculos para reaparecer nas mãos de outra mulher do sul catarinense? O cavalo deu lugar ao palanque, as campanhas militares às disputas eleitorais, mas a disposição para o enfrentamento continua despertando reações intensas.
A ironia dessa história reside na facilidade com que determinadas pessoas celebram personagens revolucionários desde que suficientemente distantes para não contrariar suas próprias convicções. Anita tornou-se estátua, nome de ruas, escolas, praças e instituições. Sua rebeldia foi incorporada ao patrimônio cívico, despojada das dificuldades e controvérsias próprias de uma personalidade que desafiou autoridades e convenções. Júlia, ao contrário, está viva, participa das disputas de seu tempo, identifica adversários, assume posições e recebe votos. Não pode ser convenientemente moldada pelas interpretações de quem discorda de suas ideias.
A invocação de Anita contra a homenagem a Júlia acaba, portanto, produzindo resultado oposto ao pretendido. A história da heroína lagunense oferece elementos de aproximação, não de incompatibilidade. Seu republicanismo, sua independência e a resistência aos poderes constituídos pertencem a uma tradição que não pode ser confiscada por qualquer corrente partidária. Muito menos autorizam a suposição de que a mulher que enfrentou os exércitos do Império e participou das lutas pela liberdade italiana teria necessariamente rejeitado uma parlamentar conservadora nascida na mesma região quase dois séculos depois.
Talvez os adversários da homenagem tenham escolhido precisamente a personagem histórica menos conveniente para sustentar sua indignação. Na terra de Anita Garibaldi, não deveria causar espanto o reconhecimento de outra mulher que fez da disposição para o combate uma marca de sua trajetória. A história, aliás, reservou uma última coincidência: o vermelho presente nas bandeiras da Itália e de Santa Catarina, duas terras entrelaçadas nas biografias de Anita e Júlia. Não o vermelho partidário ou ideológico, mas o da bravura, da identidade e do pertencimento. Um vermelho que não as separa, mas as une.
