Fé Polonesa

Texto reproduzido do livro “Histórias de Aprendiz” publicado pelo colunista.

Os camponeses da pequena vila do interior estavam acostumados a conviver com as inclemências e com as loucuras do tempo. Sabiam que, vez por outra, o verão se alongava além da conta, as chuvas tardavam e a seca tomava conta da terra…

Ainda assim, entendiam que aquela era uma seca diferente, muito diferente. Nunca tinham visto nada igual. Desgraça que comprometia toda a colheita, resultado de um ano inteiro de trabalho duro. Só os mais velhos, os bem mais velhos, tinham lembrança de tragédia semelhante.

– É a seca da taquara – explicavam. – Acontece a cada trinta anos. Ninguém lembra porque a última foi há sessenta anos, é que com a graça de Deus falhou uma taquara…

Foi falar em Deus para que os camponeses da vila – entre eles havia descendentes de portugueses, alemães, italianos, poloneses, russos, ucranianos – já próximos do desespero, se lembrassem de antigas rezas e passassem a invocar o Criador.

Para problema grande, reza prolongada. E iniciaram uma novena. Todo fim de tarde, depois do trabalho no campo, reuniam-se na capela para rezar. Dia após dia, nove noites seguidas.

No nono dia, ainda no meio da novena, trovões roucos se sobrepõem ao murmúrio da reza. Logo, a chuva se faz ouvir no telhado da pequena capela. Chove. E chove muito, o suficiente para salvar a lavoura.

A reza termina e a chuva não pára. Homens, mulheres e crianças acotovelam-se no átrio da igreja, impedidos de voltar para casa pelo aguaceiro.

Uma senhora, já avançada nos anos, cabelos brancos presos num coque, roupa escura estampando viuvez, caminha devagar até a entrada da capela e pega o guarda-chuva escondido atrás da porta.

Tranqüilamente, retorna para casa!

Conta a lenda que esta senhora – a única a realmente ter fé e acreditar na força da oração e no milagre da chuva para regar a terra seca – era polonesa, uma gente de muita crença.

História contada pela Sra. Tereza Kaszujboski,

moradora de Rio Natal, vila do interior de São Bento do Sul, Norte de Santa Catarina.

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