A GUERRA PELO SENTIDO DA CIVILIZAÇÃO

A Avenida Paulista ofereceu, no último domingo, uma amostra particularmente repulsiva daquilo que se tornou parte da militância esquerdista brasileira. A manifestação pela reeleição de Lula deixou registros de tumultos, pichações e depredação, além de uma palavra de ordem estampada sobre a cobertura de uma estação de metrô: “Viva a Revolução”. No alto de um carro de som, um personagem envolto em capa preta, com a inscrição EXU em vermelho nas costas, aparecia numa apresentação acompanhada da invocação: “Alô, Satanás! Satanás, cadê você?”. Fumaça, exaltação revolucionária e referências satânicas compunham o ambiente de um movimento que, sem qualquer constrangimento, apresentava-se como defensor da democracia. O contraste entre o discurso e o espetáculo dispensava comentários.
Mas seria um erro reduzir o ocorrido a mais uma manifestação de mau gosto, vandalismo e radicalismo político. Aquelas cenas são parte de uma confrontação muito mais profunda, travada simultaneamente em diferentes continentes. O Brasil tornou-se um dos campos de batalha de uma guerra civilizacional que envolve a própria definição de liberdade, verdade, autoridade, identidade e natureza humana. Não se disputa apenas quem governará os próximos quatro anos, mas quais valores permanecerão reconhecíveis nas próximas gerações. E, quando uma sociedade começa a tratar a destruição de suas referências como virtude revolucionária, o problema já não se encontra apenas na política. Está instalado em sua consciência moral.
O francês Brivael Le Pogam, empresário de tecnologia e fundador da Argil, publicou recentemente uma reflexão que deveria merecer atenção especial dos brasileiros. Para compreender a crise europeia, propôs retornar a 1989, quando a queda do Muro de Berlim produziu no Ocidente a ilusão de que a História havia terminado. A derrota do comunismo soviético foi interpretada por uma geração de dirigentes como vitória definitiva de um modelo universal, administrado por organismos supranacionais, com fronteiras progressivamente irrelevantes, identidades nacionais enfraquecidas e decisões entregues a burocracias cada vez mais distantes dos cidadãos.
Veio Maastricht, veio o euro, vieram a desindustrialização e a transferência de cadeias produtivas para a China. A imigração em massa foi convertida em política de Estado sem correspondente consenso popular. Quando franceses e holandeses rejeitaram, em referendos de 2005, o projeto de Constituição Europeia, suas manifestações de vontade não impediram que parte substancial daquela arquitetura institucional reaparecesse posteriormente no Tratado de Lisboa. O eleitor podia votar, desde que sua decisão não contrariasse os interesses daqueles que já haviam determinado o caminho.
Enquanto a soberania era diluída nos gabinetes, outra operação avançava nas universidades, na imprensa e nas instituições culturais. Gerações passaram a receber uma interpretação da história ocidental fundada quase exclusivamente na culpa. Suas conquistas tornaram-se suspeitas, suas tradições passaram a representar opressão, o mérito foi apresentado como privilégio e a autoridade como violência. O relativismo deixou de ser exercício intelectual para converter-se, em determinados ambientes, em instrumento de intimidação. A censura ganhou a roupagem de proteção, a discriminação ideológica apresentou-se como inclusão e a submissão ao pensamento dominante passou a ser exigida em nome da tolerância.
Le Pogam identifica nesse processo uma forma renovada de coletivismo, menos dependente da repressão física e mais eficiente no controle das consciências. O gulag foi substituído, em sua analogia, pela destruição de reputações e carreiras; o interrogatório político, pela exigência de retratações públicas; o banimento territorial, pela morte social. Sua advertência mais importante reside precisamente nessa transformação dos métodos. O autoritarismo não precisa conservar a aparência dos regimes que o precederam. Basta-lhe conquistar os mecanismos pelos quais sociedades estabelecem o que pode ser dito, ensinado, publicado e pensado.
A velha Cortina de Ferro separava territórios. A nova atravessa instituições. Passa pelas universidades, pelos tribunais, pelas redações, pelas empresas de tecnologia e pelos organismos internacionais. Separa aqueles que reconhecem na liberdade individual um princípio anterior ao Estado daqueles que pretendem subordinar o indivíduo a projetos de engenharia social. Essa divisão não coincide perfeitamente com as fronteiras partidárias, mas explica por que disputas aparentemente locais reproduzem conflitos semelhantes em sociedades tão diferentes.
Nos Estados Unidos, Donald Trump tornou-se protagonista da reação a esse modelo, enfrentando não apenas adversários eleitorais, mas estruturas políticas, culturais e burocráticas consolidadas ao longo de décadas. Na França, o debate sobre identidade nacional, imigração e soberania mobiliza forças que recusam o desaparecimento de suas referências históricas. Alemanha, Itália, Espanha e outros países europeus vivem confrontações próprias, agravadas por dificuldades econômicas, insegurança, crises demográficas e crescente desconfiança nas instituições. Não existe uma direção única comandando todos esses acontecimentos. Existe, porém, uma convergência de problemas produzidos por concepções semelhantes de poder e de organização social.
O Brasil ocupa posição estratégica nessa disputa. Nenhum outro país latino-americano reúne simultaneamente nossa dimensão territorial, população, economia, influência diplomática e capacidade de irradiar movimentos políticos pela região. A eleição presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro insere-se, portanto, em um confronto que ultrapassa o destino administrativo de Brasília. O resultado influenciará o equilíbrio continental entre projetos de poder, alianças internacionais e concepções distintas de liberdade, soberania e organização da sociedade.
A esquerda brasileira carrega, nesse contexto, contradições que já não consegue disfarçar pela simples invocação da democracia. Cultiva a retórica revolucionária enquanto ocupa o aparelho de Estado, denuncia supostas ameaças autoritárias enquanto celebra mecanismos de controle da expressão pública e reivindica superioridade moral mesmo diante dos escândalos que marcaram sua trajetória. O espetáculo da Avenida Paulista expôs, de maneira quase grotesca, essa distância entre a imagem cuidadosamente construída e as manifestações de uma militância que parece encontrar na provocação, na hostilidade e na destruição uma espécie de afirmação identitária.
Há também uma dimensão espiritual que nenhuma análise exclusivamente econômica ou institucional consegue esgotar. Civilizações não são apenas conjuntos de edifícios, riquezas e leis. São comunidades históricas sustentadas por convicções acerca da vida, da morte, da verdade, da justiça e da transcendência. O Ocidente não teria produzido sua concepção de dignidade humana sem a contribuição da tradição judaico-cristã, assim como não teria desenvolvido suas instituições de liberdade sem a herança greco-romana, o direito, a filosofia e os limites impostos ao poder político. Destruir essas referências sem oferecer fundamentos capazes de substituí-las não constitui progresso. É abrir caminho para o domínio da força, ainda que exercida sob aparência democrática.
O relativismo moral possui uma consequência particularmente perigosa: se não existem verdades que transcendam as conveniências do poder, tudo acaba submetido à vontade de quem consegue controlar as instituições. A mentira torna-se aceitável quando serve à causa, a violência recebe justificativa quando praticada pelos aliados e a liberdade passa a ser concedida seletivamente. A história do século XX demonstrou, com abundância de cadáveres, o resultado dessa pretensão de submeter a condição humana a ideologias que se consideravam autorizadas a reconstruí-la.
Le Pogam, entretanto, não se entrega ao pessimismo. Sua confiança está nos construtores, engenheiros, empreendedores, inovadores e homens capazes de realizar aquilo que as burocracias apenas prometem. Ao mencionar Elon Musk, contrapõe a inteligência aplicada à solução de problemas concretos à inteligência aparente de dirigentes especializados em discursos, encenações e narrativas. Foguetes reutilizáveis, redes globais de comunicação e avanços tecnológicos demonstram que a capacidade humana de criação permanece extraordinária, apesar das estruturas que procuram administrá-la e condicioná-la.
A inteligência artificial introduziu uma nova frente nessa batalha. Quem controlar os sistemas capazes de organizar o conhecimento, selecionar informações e orientar decisões exercerá influência sem precedentes sobre a formação das consciências. A disputa pelos algoritmos poderá revelar-se tão importante quanto aquelas travadas pela imprensa, pelas universidades e pelos meios tradicionais de comunicação. Não será suficiente conquistar governos se a próxima geração receber sua compreensão do mundo de máquinas programadas para reconhecer apenas determinada interpretação da realidade.
A Europa já sobreviveu à queda de Roma, à peste, às guerras religiosas e a dois conflitos mundiais devastadores. Reconstruiu cidades, instituições e economias porque conservou homens capazes de produzir, trabalhar, preservar conhecimentos e transmitir valores. Foi essa disposição construtiva, e não a permanente contemplação da própria culpa, que permitiu sucessivos renascimentos. Nenhuma civilização prosperou fazendo do desprezo por sua história o fundamento de sua identidade.
A batalha brasileira de 2026 talvez seja a mais importante da América Latina, mas continuará sendo apenas uma das frentes de uma guerra muito maior. O verdadeiro confronto prosseguirá nas escolas, nas famílias, nas igrejas, nas universidades, nos tribunais, nos meios de comunicação e nas plataformas digitais. Sua duração não será determinada pelo calendário eleitoral, tampouco seu resultado poderá ser medido exclusivamente pela composição de governos.
A grande questão do nosso tempo já não é saber apenas quem exercerá o poder, mas se ainda existirão limites morais, culturais e institucionais capazes de contê-lo. O mundo não está dividido simplesmente entre partidos, países ou governos. Está atravessado por uma confrontação entre a liberdade de construir e a obsessão de controlar, entre a continuidade civilizacional e a desconstrução de seus fundamentos.
Há, por fim, uma coincidência no calendário que adquire especial significado. O espetáculo de intolerância, vandalismo e exaltação das trevas na Avenida Paulista ocorreu precisamente na véspera de 12 de outubro, dia consagrado a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. Enquanto ontem se invocava Satanás sobre um carro de som, hoje milhões de brasileiros se voltam àquela que simboliza, há mais de três séculos, a fé e a esperança de nosso povo. Que a luz deste dia sagrado dissipe as sombras de ontem, devolva serenidade aos espíritos e fortaleça a consciência daqueles que ainda reconhecem o valor da civilização que herdamos. Porque nenhuma nação está condenada às trevas enquanto conservar a fé, a coragem e a disposição de defender aquilo que tem de mais sagrado.
