Perspectiva Política: movimentos eleitorais, disputas no Congresso e renovação
A sucessão de medidas da campanha de Lula, a luta de Alcolumbre e Motta pela permanência no comando do Congresso e o avanço de mulheres e jovens na política marcam esta edição.
Queimando munição
Uma campanha presidencial trabalha com pesquisas, informações internas, acompanhamento dos adversários e estratégias para diferentes cenários. Por isso, nenhuma candidatura competitiva costuma “queimar munição” sem considerar que exista uma necessidade política. A intensidade dos movimentos realizados pela campanha do presidente Lula indica que seu comando pretende alterar rapidamente o ambiente eleitoral.
Em poucos dias, Lula apresentou o pacote destinado aos microempreendedores individuais, anunciou o Pé-de-Meia Universitário e declarou que o governo poderá financiar cursos no exterior. O último movimento aconteceu ontem, com Lula prometendo uma PEC para que o transporte coletivo seja gratuito nos finais-de-semana e nos feriados. Algumas dessas iniciativas ainda são promessas, dependem de regulamentação ou exigirão recursos orçamentários.
O movimento também chegou ao Congresso. Lula articulou com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a votação acelerada da PEC que acaba com a escala 6×1, aprovada em dois turnos. Na Câmara, o presidente Hugo Motta colocou em votação o projeto dos MEIs, aprovado em menos de 72 horas após o anúncio do governo.
As propostas podem ser discutidas individualmente em seus méritos, custos e aspectos jurídicos. Politicamente, porém, o conjunto transmite uma mensagem: Lula e sua campanha consideram necessário mudar um quadro eleitoral desconfortável. A quantidade de munição utilizada em tão poucos dias mostra que o comando petista reconhece o tamanho do risco para a reeleição.
A sobrevivência de Alcolumbre e Motta

Davi Alcolumbre e Hugo Motta terão de “se virar nos 30” se quiserem renovar seus mandatos como presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados. Os dois enfrentam resistências, mas a situação de Alcolumbre parece mais complicada, especialmente pela nova composição do Senado.
Além do desgaste público e das dificuldades internas, Alcolumbre terá de enfrentar o PL, que elegeu a maior bancada da Casa e tem interesse direto em comandá-la. Para parte do partido, a Presidência do Senado é estratégica diante dos confrontos com o Supremo Tribunal Federal. Como movimento de sobrevivência, Alcolumbre aproximou-se da campanha de Lula e acelerou a votação da PEC que acaba com a escala 6×1, uma das principais bandeiras eleitorais do presidente. Se Flávio Bolsonaro vencer, sua permanência no cargo ficará ainda mais difícil.
Hugo Motta também enfrenta obstáculos. Ao contrário do que chegou a circular, o PL não abriu mão da Presidência da Câmara e resiste à sua reeleição. Motta, entretanto, recebeu apoio antecipado de lideranças de dez partidos do Centrão, que reúnem aproximadamente 245 deputados. Sua situação, portanto, é menos delicada do que a de Alcolumbre, mas está longe de estar resolvida.
Motta declarou apoio formal à reeleição de Lula e também ofereceu um gesto político ao governo ao pautar, em menos de 72 horas, o projeto destinado aos MEIs. Alcolumbre e Motta fizeram suas escolhas e movimentam as estruturas que comandam. Depois da eleição presidencial, começarão outra campanha: a sobrevivência política de ambos no comando do Congresso.
Uma renovação que faz bem
Existe uma transformação positiva e cada vez mais perceptível na política brasileira: o crescimento da participação e da eleição de mulheres, além da maior competitividade de candidatos jovens. O movimento aparece nas câmaras municipais, nas assembleias legislativas, na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, independentemente de partidos ou campos ideológicos.
Nas eleições deste ano, 109 mulheres conquistaram cadeiras na Câmara Federal, contra 90 em 2022. Outras 213 foram eleitas para as assembleias legislativas, enquanto 12 conquistaram vagas no Senado — o maior número desde a redemocratização. Os jovens também ganharam protagonismo: nove dos dez candidatos mais votados para a Câmara têm menos de 40 anos, embora a idade mediana da Casa tenha permanecido em 49 anos.
Ainda existem políticos tradicionais com grande força eleitoral, e a renovação geral da Câmara foi menor do que em 2022. Mesmo assim, o eleitor parece abrir mais espaço para novas lideranças e reduzir gradualmente a atração por candidaturas meramente folclóricas. Com juventude, experiência, maior presença feminina e diversidade de ideias, o Brasil constrói um caminho promissor para o amadurecimento de sua democracia.
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