Grêmio e Inter: dois gigantes presos a uma realidade que suas torcidas não merecem

Clubes convivem com pressão financeira, resultados ruins e recorrentes erros de gestão enquanto passam mais uma temporada olhando para a parte de baixo da tabela

Grêmio e Internacional são dois dos maiores clubes do futebol brasileiro.

Campeões da América.

Campeões do mundo.

Donos de torcidas gigantescas, estruturas relevantes e histórias que ultrapassam as fronteiras do Rio Grande do Sul.

Mas, nos últimos anos, a realidade dentro de campo tem sido muito inferior ao tamanho de suas camisas.

Em vez de disputar títulos nacionais, Grêmio e Inter passaram a conviver com uma rotina incômoda: olhar para a parte de baixo da tabela e calcular a distância para a zona de rebaixamento.

Em 2026, novamente, a situação preocupa.

Após 23 rodadas, o Grêmio ocupa a 15ª posição, com 25 pontos, depois de perder por 3 a 0 para o Atlético-MG. O Internacional aparece logo atrás, em 16º, com 24 pontos, apenas um acima da zona de rebaixamento após empatar em casa com o Remo.

É pouco.

Muito pouco para dois clubes desse tamanho.

E o problema não parece estar apenas dentro das quatro linhas.

Os dois convivem com pressões financeiras importantes.

O Grêmio iniciou 2026 precisando quitar aproximadamente R$ 100 milhões em dívidas e pendências, incluindo salários, luvas e valores relacionados a transferências. O clube chegou a sofrer transfer ban da FIFA por dívida referente à contratação de Arezo e precisou organizar pagamentos para voltar a registrar jogadores.

Meses depois, a própria direção admitiu novos atrasos envolvendo salários, direitos de imagem e luvas. Os gastos mensais com futebol chegaram a superar R$ 30 milhões, obrigando o clube a rever a política de contratações e reduzir custos.

O Internacional também enfrenta uma situação financeira que exige atenção.

Embora tenha encerrado 2025 com superávit de R$ 9 milhões e redução nominal do endividamento, o próprio clube reconheceu que o cenário ainda estava longe de ser confortável. O passivo permanecia elevado e a direção destacava a necessidade de aumentar receitas e reduzir custos.

Em 2026, a pressão voltou a aparecer rapidamente. O balanço do primeiro trimestre registrou déficit superior a R$ 80 milhões, enquanto o primeiro quadrimestre fechou com resultado negativo de aproximadamente R$ 94 milhões.

Os números ajudam a explicar parte do que o torcedor observa em campo.

Clubes endividados precisam vender jogadores.

Precisam antecipar receitas.

Dependem de novos financiamentos.

Pagam juros.

E, ainda assim, frequentemente comprometem valores elevados em contratações que não entregam o retorno esperado.

Esse talvez seja um dos pontos mais difíceis de compreender.

Grêmio e Internacional movimentam milhões todos os anos.

Contratam jogadores caros.

Mantêm folhas salariais elevadas.

Trocam treinadores.

Mudam executivos.

Reformulam elencos.

E os resultados continuam aparecendo muito abaixo do investimento realizado.

Não é possível atribuir tudo à falta de dinheiro.

Existe também um problema de qualidade das decisões.

Quando um clube com dificuldades financeiras contrata mal, o erro custa duas vezes.

Primeiro, porque o jogador não entrega aquilo que era esperado.

Depois, porque o clube continua obrigado a pagar salários, parcelas da transferência, luvas e direitos de imagem.

Em alguns casos, o problema termina nos tribunais esportivos ou na Justiça.

Essa realidade não é exclusiva da dupla Gre-Nal. O futebol brasileiro vive uma fase de forte endividamento e aumento das punições relacionadas a pagamentos não realizados. A FIFA e, mais recentemente, os mecanismos de fair play da CBF vêm ampliando o controle sobre dívidas entre clubes e contratações.

Mas isso não diminui a responsabilidade de Grêmio e Internacional.

Pelo contrário.

São clubes grandes demais para transformar a luta contra o rebaixamento em rotina.

O torcedor colorado não deveria começar cada temporada preocupado em alcançar 45 pontos.

O gremista também não.

Essas torcidas acostumaram-se a finais de Libertadores, títulos nacionais, grandes jogadores e equipes respeitadas internacionalmente.

É evidente que nenhum clube permanecerá permanentemente no topo.

Futebol possui ciclos.

Mas uma coisa é atravessar uma temporada ruim.

Outra completamente diferente é repetir problemas semelhantes durante anos.

Dívidas elevadas.

Folhas caras.

Contratações questionáveis.

Trocas constantes.

Times desequilibrados.

Resultados insuficientes.

Quando o mesmo roteiro se repete, deixa de ser azar.

Passa a ser gestão.

Grêmio e Internacional possuem torcida, patrimônio, tradição, marca e capacidade de geração de receitas suficientes para construir projetos muito mais competitivos.

Precisam, porém, gastar melhor.

Planejar melhor.

Contratar melhor.

E entender que nenhuma grande camisa vence partida sozinha.

Hoje, o retrato é triste.

O Grêmio está perigosamente próximo da zona de rebaixamento.

O Internacional também.

Dois gigantes brasileiros e campeões mundiais novamente olhando muito mais para quem está atrás do que para aqueles que disputam o título.

As torcidas merecem muito mais.

Não necessariamente títulos todos os anos.

Mas certamente merecem clubes organizados, financeiramente responsáveis e times capazes de entrar em campo compatíveis com a história que representam.

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