Entre a tristeza e a esperança, um país que precisa se reencontrar

Quando a diferença de opinião se transforma em hostilidade, reconstruir o respeito entre brasileiros passa a ser uma responsabilidade de todos.

Escrevo com tristeza, mas também com esperança. Tristeza ao observar como o confronto político passou a ocupar espaços que deveriam pertencer à convivência, à amizade e ao respeito. Esperança porque acredito na capacidade das pessoas de mudar o rumo da sociedade que elas próprias construíram.

Nas últimas décadas, ganhou espaço uma maneira de fazer política que explora diferenças para alimentar antagonismos. Ricos contra pobres, brancos contra negros, sulistas contra nortistas, heterossexuais contra homossexuais, seguidores de uma religião contra os de outra. Características pessoais, condições sociais e lugares de origem passaram a servir de combustível para disputas de poder.

Nesse ambiente, pensar diferente virou, para muitos, motivo suficiente para tratar alguém como inimigo. A discordância deixou de ser uma oportunidade de debate e passou a justificar ofensas, rompimentos e desconfiança. Famílias, amizades e relações de trabalho sentiram os efeitos dessa transformação.

Há responsabilidade política nesse processo. Quem usa a posição que ocupa para estimular ressentimentos precisa responder pelo que diz e pelas consequências que produz. Lideranças deveriam apresentar soluções, enfrentar problemas e trabalhar para melhorar a vida da população. Alimentar a hostilidade pode render atenção e mobilizar seguidores, mas deixa uma sociedade mais dividida.

Combater o racismo, a pobreza, a discriminação e a intolerância religiosa exige reconhecer problemas reais e agir sobre eles. Essa responsabilidade também exige respeito pelas pessoas. Nenhuma causa se fortalece quando transforma grupos inteiros em culpados ou faz da humilhação um instrumento de convencimento.

Um país precisa conseguir discutir suas diferenças sem perder a capacidade de viver junto. Podemos divergir sobre governos, impostos, prioridades e escolhas eleitorais. Podemos cobrar, criticar e defender nossas convicções com firmeza. O respeito à dignidade de quem discorda deve acompanhar tudo isso.

Não quero desistir dessa possibilidade. O rumo da humanidade é feito de escolhas humanas, e cada um participa dessa construção. Há escolhas nas palavras que usamos, no conteúdo que compartilhamos, na disposição para ouvir e na coragem de interromper uma injustiça, inclusive quando ela parte de alguém com quem concordamos politicamente ou de quem discordamos.

É nesse sentido que me apego ao velho ditado: “O bem sempre vence”. Como uma esperança que precisa encontrar expressão em nossas atitudes. Esperar por uma sociedade melhor também significa trabalhar por ela.

Para simbolizar esse sentimento, recorro a uma das músicas de que mais gosto: “Juízo Final”, de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares. Um breve verso traduz a esperança que desejo compartilhar: “A luz há de chegar aos corações”.

Vejo na canção a confiança de que a humanidade pode superar a maldade e reencontrar o amor. Essa mensagem me acompanha quando penso no Brasil e na convivência que precisamos reconstruir.

Escrevo com tristeza pelo que temos vivido. E com esperança no que ainda podemos fazer, juntos.

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